Notibras

A Liberdade Que Nunca Foi Nossa

Nós achamos curioso quase trágico como esquecemos de ler aquilo que sempre esteve escrito nas entrelinhas: não existe nada de liberdade em Trump, assim como nunca existiu liberdade plena no chamado sonho americano. O que existe é uma narrativa bem-sucedida, repetida à exaustão, até que pareça verdade.

Trump não é uma ruptura; ele é sintoma. Ele encarna, sem pudor, aquilo que sempre estruturou o poder nos Estados Unidos: nacionalismo econômico, supremacia disfarçada de mérito e uma ideia de liberdade restrita a quem pode pagar por ela. Hannah Arendt já alertava que regimes autoritários não surgem do nada eles se alimentam de frustrações, medos e da normalização do discurso da exclusão.

O sonho americano nunca foi coletivo. Ele sempre funcionou como promessa individual, baseada na competição e na eliminação simbólica do outro. Como lembra Angela Davis, não há liberdade possível em um sistema que depende da exploração contínua de corpos racializados, imigrantes e pobres para sustentar o conforto de poucos. A liberdade vendida como produto nunca foi liberdade foi privilégio.

Nós aprendemos, desde cedo, a associar os Estados Unidos à ideia de progresso, democracia e oportunidade. Mas, como aponta Noam Chomsky, a política externa norte-americana sempre esteve menos comprometida com direitos humanos e mais alinhada à manutenção de interesses econômicos e geopolíticos. O discurso da liberdade serve como cortina: atrás dela, operam sanções, intervenções e guerras seletivas.

Trump apenas retirou o verniz. Disse em voz alta o que antes era dito com diplomacia. Transformou o ódio em slogan e o isolamento em projeto político. Mas o terreno já estava preparado. Byung-Chul Han diria que não se trata de um excesso, e sim da lógica interna de um sistema que transforma tudo inclusive a política em espetáculo e mercadoria.

Nós, do sul global, nunca fomos convidados para esse sonho. Fomos o combustível. Fomos o território explorável, o mercado consumidor, a mão de obra barata e o laboratório de intervenções. Eduardo Galeano já havia nos contado essa história: a liberdade de uns sempre custou a submissão de outros.

Talvez o erro tenha sido acreditar que democracia se exporta como produto acabado. Ou que liberdade possa coexistir com fronteiras fechadas, prisões lotadas e políticas que decidem quais vidas importam. Achille Mbembe nos lembra que o poder contemporâneo escolhe quem pode viver e quem pode morrer e isso não é liberdade, é gestão da morte.

Ainda assim, nós seguimos escrevendo. Porque lembrar também é um ato político. Ler o mundo com atenção é uma forma de desobedecer à narrativa dominante. E talvez a nossa liberdade a possível, a real esteja justamente nisso: em não aceitar sonhos que nunca foram feitos para nos incluir.

Nós não esquecemos mais. E isso, por si só, já é um começo.

Sair da versão mobile