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A luta da mãe contra o filho dependente químico

Maria Elza e Agenor são dois amigos das antigas. Crescemos juntos, Agenor e Maria Elza se casaram dois meses antes de mim, eu fui madrinha dela, ela, minha madrinha, aquela amizade de sempre.

Eu tive três filhos, dois homens e uma menina. Ela também teve três, só que duas meninas e um menino. Quase todos das mesmas idades.
Mas, por capricho da vida, o filho dela, do meio, o Marcelo, se envolveu com drogas logo no início da adolescência. Desde então, eles passaram maus pedaços com ele, na peleja de tirá-lo das drogas.

Um menino bom, inteligentíssimo, mas não conseguiu usar a inteligência a seu favor. Foi se afundando nas drogas, cada dia mais.

Elza e Agenor gastaram o que não tinham com internações, tratamentos revolucionários, até com remédios importados, mas nada que fizeram obtiveram êxito. Cada dia, Marcelo se afundava mais.

Hoje, Marcelo tem 44 anos. Teve um relacionamento com uma moça e desse relacionamento, há 22 anos, nasceu uma menina, que é o que de melhor aconteceu nessa história toda.

Marcelo é muito educado, muito carinhoso, mas cérebro nenhum aguenta tanto uso de drogas pesadas, e mudou o comportamento. Ora está uma seda, ora está um velcro. Ninguém sabe a hora que ele vai estourar.

De um certo tempo pra cá, começou a tratar Agenor como se fosse um coleguinha dele, xingando o pai, ameaçando. Agenor fica muito nervoso, e Elza não vê a hora de acontecer coisa pior.

Marcelo sempre morou com os pais, mesmo quando morava com a mãe da filha dele, mas, ultimamente, Elza viu que não dava mais para suportar essa situação, a ponto de acontecer uma tragédia familiar. Marcelo desafiava Agenor, mandando-o matar.

— Vai, me mata. Olha aqui o meu peito aberto, enfia uma faca aqui no meu peito — falava estufando o peito e encostando em Agenor.

— Eu jamais vou fazer uma coisa dessa com um filho meu, porque, apesar de tufo, eu te amo! — falava Agenor tremendo e roxo, de tanta pressão.

— Que nada! Você não faz isso porque você é um covarde. Você não tem coragem. Você é vagabundo.

Sendo que a vida de Agenor foi trabalhar de sol a sol para dar vida digna para os filhos.

Nesse dia, Agenor não aguentou a pressão e pegou um facão. Marcelo, vendo o pai com o facão na mão, correu. Elza, no meio daquilo tudo, acalmou o marido, tirou-lhe o facão da mão, pegou a bolsa e pegou o caminho da delegacia. Deu queixa e pediu uma medida protetiva para Marcelo não entrar mais em casa.

Elza já vinha pensando em uma solução para o caso do Marcelo, pois não podia ter nada sem ser trancado, pois Marcelo pegava tudo para valer como moeda de troca. Tudo que se pode imaginar, ele pegava, utensílios domésticos, roupas, calçados, celulares, mantimentos, carnes, roupas de cama, toalhas, material de limpeza, de higiene pessoal, aparelhos de TV, liquidificadores, sanduicheiras, panelas, frigideiras, botijões de gás, forno elétrico, forno de micro-ondas, panelas de pressão com feijão, com carne, que Elza cozinhava, enfim, tudo que tinha algum valor monetário, Marcelo subtraía para usar drogas.

A casa de Elza mais parecia uma prisão, e ela com um molho de chaves para cima e pra baixo, porque não podia deixar nada do lado de fora. Isso foram muitos anos, pois foi somente em 2025 que Elza teve coragem de tomar essa atitude.

Pois bem, Marcelo pensou que fosse brincadeira e, no mesmo dia, entrou na casa, pulando o muro e quebrando a porta de vidro para entrar e portando uma barra de ferro. Elza tirou, não sei como, a barra de ferro das mãos de Marcelo e Agenor acionou o 190. Em pouco tempo, a PM chegou e levou Marcelo.

Marcelo ficou preso por 3 meses. Quando saiu, foi advertido que não poderia ir em casa, mas parece que ele não acreditou. Foi, pulou o muro, a PM foi acionada, e novamente lá estava Marcelo na Casa de Prisão Provisória. Mais três meses de reclusão.

Elza pensou que a vida dela ia ter paz, mas qual nada, todos os dias sabia de uma conversa atravessada. Dividiu-se a opinião da família e dos amigos. A maioria ficou do lado de Elza, pois foram 30 anos de peleja. Mas têm os que falam horrores de Elza, inclusive Agenor, que é a maior vítima.

Agenor não perde oportunidade de falar que Elza está insensível, que ela nunca foi assim, que ela deveria retirar a medida protetiva, para Marcelo voltar pra casa, mas ela está irresistível, disse que foi muito, mas muito difícil tomar essa decisão, mas que agora, por mais que o coração dela esteja dilacerado, ela não vai voltar atrás.

Ontem, ela me falou:

— Maria Lúcia, o mundo inteiro pode não entender, mas eu fiz isso pra ver se Marcelo entende que, se ele não tiver nosso apoio, ele possa ter mais força de vontade para melhorar.

Ah! E não pense vocês que Marcelo não faz tratamento, faz, mas não toma os remédios e, pelo que todos veem, parece que ele não quer sair dessa vida. É difícil. Muito difícil!

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