Notibras

A magnífica mansão

Ele acordou com ela dormindo a seu lado, quente e doce como uma prenda do universo. Ouviu-a respirar suavemente e sentiu uma gota de mel caindo em leite.

Levantou-se da cama e vestiu-se apressadamente. Precisava de falar. Todo aquele silêncio de uma noite passada simplesmente a tentar sonhar ou a ficar inconsciente num sono mágico que via passar as horas inquietava-o.

Deu-lhe um beijo bem vermelho nos seus lábios macios e saiu pela porta, até logo, disse apressado.

Ao entrar no automóvel lembrou-se perfeitamente onde tinha de ir, à magnífica mansão bem no alto do monte do rio Ol, lá no cimo da cidade.

Haveria de falar com alguém que o tirasse daquele nervosismo existencial, daquela ânsia de ter dizer o que sabia, de ter de dizer tudo o que sabia…

As ruas da cidade passavam pelos vidros do automóvel como cenários familiares, como lugares comuns na sua consciência de ser o espaço imerso naqueles cenários familiares que passavam lentos pelos vidros do automóvel.

Parecera-lhe que tinha sonhado tudo aquilo há seculos atrás e que agora apenas existia ali, naquele lugar, para confirmar o sonho daquela cidade, daqueles cenários, daquelas pessoas para ele anónimas que passavam como figurantes no teatro aberto do universo.

O sol batia quente no asfalto, nas casas e nas ruas.

Era um Verão incandescente deveras, um dos mais quentes que foram sentidos naquela área desde que havia memória.

Memória? O que seria a memória senão uma viagem de novo contada, registada para dizer o que já foi dito eras atrás e no futuro dito outra vez.

Sentia-se desesperado.

…Uma angústia de ter de viver naquele século, de ter de ter um papel naquele século, de deixar apagar um a um os seus chacras em nome de uma cultura que lhe dava a memória e a identidade, que lhe dava o que tinha de pensar todos os dias nos média cada vez mais impertinentes e obscenos, rápidos e redundantes, que lhe saíam do rádio do carro, da internet mega rápida, dos livros reescritos mil vezes com novas palavras dizendo apenas coisas velhas, dos ecrãs de cinema e de televisão cada vez mais publicitários apenas vendendo, pessoas, marcas, políticas, medos, fabricando ídolos para serem adulados e seguidos, falsos segredos, com a sinceridade gasta em poses psicologicamente testadas em ratos de laboratório, todos nós, todos nós, engolindo engodos de gente que nunca dá pontos sem nós…

…E ter de acreditar, que o peixe grande sempre engole o peixe pequeno neste mar…

…A nova arte estava condenada a ser mais uma chama no fogo, a verdadeira arte seria sempre apenas jardinagem, mais nada…

…Estar aqui deve ser observar, deixar a corrente correr, fazer tudo sem nada fazer, sorver o que a cena a desenrolar traz e agradecer, morrer, viver, talvez fosse tudo apenas um estar do ser… O que vier será comigo também… Oh o sol deste amanhecer!…

Com estes pensamentos foi subindo o monte do rio Ol.

No espelho retrovisor a cidade desaparecia num bulício cada vez mais silencioso mergulhada no bulício cada vez mais silencioso do motor do automóvel.

Por detrás dos velhos carvalhos que se perfilavam à sua frente, a magnifica mansão foi aparecendo, de fachadas brancas enormes, com fontes e jardins, arcadas subindo imaginariamente informes, uma estátua de S. Francisco maravilhada ao sol do meio-dia parecia dizer, eu também sou assim, era meio-dia em ponto quando chegou.

Atravessou um pequeno caminho de pedra e deparou-se com a enorme entrada da magnífica mansão.

Magnificamente arquitectada, com linhas sóbrias e imponentes, parecia um gigante branco com pequenos liliputianos dentro cruzando conversas rápidas com o zéfiro que passava às cabriolas na sua cabeça enquanto avançava para a entrada.

Tocou à campainha.

A porta branca abriu-se magnetizada por um zumbido eléctrico.

Entrou.

À sua frente um hall de entrada com cheiro a mogno e a pinturas antigas religiosas. Aproximou-se do balcão da recepção sentindo-se calmo e como que em casa.

Os pequenos liliputianos dentro daquele gigante branco continuavam cruzando conservas rápidas com as breves correntes de ar que passavam por ali.

Uma senhora de cerca de sessenta e seis anos conversava com o recepcionista de olhos brilhantes e aguados.

“Minha senhora, aconselhamento espiritual só para o mês que vem, o Frei António neste momento está de férias num congresso espiritual na Grécia, só pode atender em Setembro. Telefone por volta do dia três por favor.”

“Mas eu insisto, retorquiu a senhora de cerca de sessenta de seis anos, não consigo dormir há mais de uma semana, é uma inquietude que temo ser de ordem espiritual, os psicólogos e os psiquiatras apenas me receitam remédios para andar a dormir quer de dia quer de noite, não suporto, tem de haver uma explicação de ordem metafísica, o meu marido, que Deus o tenha, sempre me disse, fala com o Frei António, ele tem as palavras certas para te dizer, para te convencer de que ninguém morre, nem eu, nem tu, ninguém…”

“Minha senhora, volto-lhe a repetir, aconselhamento espiritual só para o mês que vem, o Frei António neste momento está de férias num congresso espiritual na Grécia, só pode atender em Setembro. Telefone por volta do dia três por favor.”

A senhora de cerca de sessenta de seis anos, ou lá o que isso significa ante a imensidão do tempo, agradeceu e voltou a agradecer humilíssima, guardou o cartão que o recepcionista de olhos brilhantes e aguados lhe deu na bolsa e, um pouco tímida e de olhos circulando rápidos como que se esquivando de ser feliz, saiu pela porta, ainda lhe disse bom dia mas a ele parecera-lhe ser antes algo como bom dia com zéfiros, liliputianos cruzando conversas com as correntes de ar e troncos de árvores com demasiados veios circulares na madeira secando com o tempo de espera na vasta floresta da incompreensão humana.

Fechou a porta e desapareceu de cena.

Ele, solícito como um agente secreto obedecendo a ninguém, pergunta ao recepcionista de olhos brilhantes e aguados:

“Fazem confissões?”

“Com certeza. Queira esperar um pouco naquela sala ali. Eu acompanho-o. Por aqui por favor.” Ele seguiu o recepcionista de olhos brilhantes e aguados.

Alguns passos perderam-se naqueles corredores silenciosos cheirando a mogno e emanando uma aura de respeito nas obras de arte religiosas que pareciam a tudo assistir como se soubessem de um segredo maior que as paredes, mortas no silêncio, ansiavam poder decifrar.

“Por favor sente-se ali nessa cadeira. Vou chamar o frei Gabriel que o vai atender de seguida. Queira esperar alguns minutos.”

Ele sentou-se num cadeirão almofadado como que depositando o peso do seu corpo numa emoção de largar tudo de vez, de estar sentado e apenas esperar.

Esperar apenas seria, durante aquele novo momento que durava, todo o propósito da sua existência desde que entrara naquela magnifica mansão branca até à chegada de frei Gabriel, que desconhecia simplesmente quem seria ou o que pensaria de si, ali, sentado num cadeirão almofadado como que depositando o peso do seu corpo numa emoção de largar tudo de vez, de largar tudo de vez…

Imerso naquele silêncio de cortinas brancas arrastando-se levemente ao vento pensou, num minuto que seria já toda a eternidade, no que iria dizer a frei Gabriel, se faria sentido o que queria dizer e lhe confessar.

Pesava-lhe a alma estar calado em relação a certos assuntos que ninguém em nenhum lado compreenderia. Não se atrevia a falar a ninguém. Só ele e o olhar que tudo vê dentro do triângulo dourado da igreja a que todos os Domingos assistia missa compreendia e lia o que lhe ia nos pensamentos, cada vez mais secretos e herméticos como o significado oculto daquelas correntes de ar, como zéfiros que atravessavam aqueles corredores da mansão branca magnifica, e que lentamente, como liliputianos loucos e desordenados, cruzavam conversas versando uma anamnese completa da estadia dele naquela mansão, da sua intenção de falar com frei Gabriel, da razão de estar ali, sentado num cadeirão almofadado como que depositando o peso do seu corpo e da alma numa emoção feita de paz aflita de quem quer largar tudo de vez, de quem quer largar tudo de vez…

Oh, a espera…

De súbito, um homem alto, de hábito castanho e com uma corda amarrada à cintura aparece na sala de telemóvel na mão.

“Como está? Deixe-se ficar sentado por favor. Um momento enquanto atendo esta chamada.

Sim? Em Westminster também era assim comigo, tens de aguentar, olhar em frente, não desanimar. Sim. Depois falamos. Agora tenho de fazer uma confissão. Até logo.

Desculpe. Vamos prosseguir. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

O que o traz aqui?”

“Sabe, o que me traz aqui é uma infindável sucessão de silogismos que já não consigo resolver. Questões filosóficas e religiosas que me atormentam desde pequeno…

Não sei como começar…

Sei que não tenho honrado pai e mãe, que tenho sido orgulhoso na minha conduta com eles, estou desempregado e é-me difícil perceber o meu papel nesta sociedade feita apenas para ganhar dinheiro e arder em vaidades.

Sei que eles me criaram e sustentaram e me deram tudo mas chegou a minha vez frei Gabriel, a minha vez de tomar as rédeas da minha vida e construí-la…”

“Sim, compreendo, mas sabe, os pais são como duas colunas na nossa vida, deram-nos a vida e são o nosso apoio até ao fim das nossas vidas. É casado?2

“Não, ainda não, tenho noiva, planeamos casar…”

“Pois, pois, veja, quando se casar e quando se emancipar, só aí terá legitimidade para deixar os seus pais e prosseguir com a sua nova vida com a sua esposa, verá que só o acto de casar e de se emancipar financeiramente terá um efeito mágico na sua relação com eles.

Tente ser dócil com os seus pais até lá…”

O telemóvel toca de novo.

“Sim, olá, como estás, não, não, agora não te posso atender, estou em direcção espiritual, ligo-te mais tarde. Até logo.”

“Frei Gabriel, existem certos assuntos que revolvem na minha cabeça numa guerra filosófica sem fim quando tento resolver enigmas como a morte, o purgatório, para onde vamos quando morremos…

É algo difícil para mim partilhar, por favor queira ouvir um pouco o que me aconteceu…”

“Com certeza. São temas fascinantes. Eu próprio me debato com esses temas há anos, Sartre, Kierkegaard, Platão, devorei essas leituras e os seus ensinamentos desde pequeno.

Mas antes deixe-me contar-lhe algo que me aconteceu também. Algo que me mudou profundamente ao confrontar-me directamente com a morte.

Digamos que me tornei diferente a partir do momento em que me foi diagnosticado um cancro galopante, tinha dias de vida apenas, dizia-me o médico, e eu, naquela cama de hospital, comigo tinha apenas três coisas, a confissão, a comunhão e a extrema-unção que um amigo capelão me ministrou estava eu quase inconsciente.

Depois, preparado para morrer, para ver o que iria surgir quando partisse dali, sabe, o médico dizia que eu era louco, que segundo o juramento de Hipócrates o doente teria de ser salvo até ao fim, até ao último momento.

Eu disse-lhe, doutor, deixe-me ir, estou pronto.

E ali fiquei deitado. Senti a minha consciência a desvanecer, a desvanecer, entrei num sítio escuro como se estivesse no meio do espaço e aproximou-se uma luz, calma e de uma brancura imaculada, senti uma paz inominável, havia cânticos e vi um jardim…

Depois, rodopiando, acordei de novo na cama do hospital.

E dali até hoje resisto a tudo o que me diz que o materialismo está certo e que só há a razão e o nada e que não há razão para existirmos neste mundo a não ser o hedonismo e a busca desenfreada pelo dinheiro.

É mentira, eu estive lá, pude testemunhar!”

Fez-se um silêncio que ensurdecia a mansão magnífica em redor como um momento inefável.

“Sabe meu amigo, o amor, amar, dizer eu amo-te a alguém é dizer ao mesmo tempo tu és imortal e eu sou imortal também, o amor nunca morre, ultrapassa a matéria, faz subir a alma deste pântano temporário em que nos encontramos…”

De novo um silêncio imenso instalou-se como se dois irmãos sem nome ali estivessem trocando palavras secretas de abertura para novos patamares da consciência.

“Ainda bem que me diz isso Frei Gabriel…

A minha história… A minha história é um pouco diferente, um pouco diferente. Queira-me ouvir por favor…

Desde que me conheço que pratico meditação, levo a minha vida normal de cidadão normal que cumpre os seus deveres e obrigações e que sabe dos seus direitos, mas, sempre quando posso, medito, medito ardentemente, numa ânsia de comunicação com algo mais dentro de mim que não seja os mesmos estereótipos do dia-a-dia, as rotinas e o tempo desperdiçado em árduas lições de convívio e de bem-viver ao estilo ocidental.

O meu papel aqui, reconheço-o cada vez mais, é ter a noção nítida de que embora pertença a este mundo não sou deste mundo.

Há um reino em mim que faz do meu pensamento ser livre como o vento, alegre como uma criança sem os castigos injustos da sociedade que simplesmente não compreende o que é ser espiritual e calar, e todos os dias acordo como que nascendo e todos os dias me deito como que morrendo, e vivo assim, todos os dias, para simplesmente fazer de mim e do mundo em que existimos ser algo de melhor em relação ao que existia ontem quando me fui deitar depois do dia gasto na doce fadiga de o querer melhorar…”

“Sim, mas onde quer chegar?”

“Já lá vou.

Numa destas minhas meditações…

Numa destas minhas meditações tive uma experiência que me marcou profundamente até hoje frei Gabriel.

Numa destas minhas meditações, numa destas meditações senti a minha alma a sair do meu corpo.

Saí de mim mesmo.

Olhei para a cama e vi o meu corpo deitado, parado.

Vislumbrei com nitidez todo o meu quarto.

Tudo em redor estava igual. Apenas parecia um mundo diferente, como se tudo vivesse dentro de um aquário, havia algo de aquático na percepção que tive daquele quarto e de mim mesmo dormindo na cama.

Depois…

Depois, atravessei a porta do meu quarto, caminhei pelos corredores de minha casa, atravessei a porta de entrada, vi uma luz forte, tão forte, que me cegou, fechei os olhos e acordei, agora no meu corpo físico, na cama, de novo no meu quarto pintado de cinzento e com fotografias da minha família, com o abajur aceso, o relógio a indicar as treze horas e treze minutos.

Não sei explicar…

Simplesmente não sei explicar o que me aconteceu…”

De novo um silêncio de fora de sepulcro invadiu aquela pequena sala onde os dois homens conversavam.

Frei Gabriel olhou-o demoradamente e disse:

“A sua experiência é avassaladora, algo que só acontece uma vez num milhão. Tenha cuidado em não falar a ninguém dela senão internam-no num manicómio. Muitos padres não acreditariam no que me disse agora mesmo, alguns dizem que isso são alucinações, delírios, despersonalizações. Eu sei lá…

Apenas lhe aconselho a entender essa profunda experiência espiritual como algo de positivo que o faz ter uma paz que vai mais além do comum dos seres humanos.

Não sei o que lhe diga.

Não sei mais o que lhe dizer…

Parabéns, mas não diga nada a ninguém, nunca, guarde esse segredo para si, morra com ele, a sociedade não está preparada para o saber…

Eu te absolvo dos teus pecados. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Reze três ave-marias e três pais-nossos, seja dócil com os seus pais.

Foi um prazer conhecê-lo.

Bom dia e até à próxima.”

Pegou no telemóvel e num instante iniciou uma nova conversa desaparecendo nos corredores da mansão branca.

Ele dirige-se para a saída, abre a porta principal e uma luz intensíssima bate-lhe na cara enquanto desce alguns degraus de pedra.

E pensou, num relance platónico, que iria ter de descer as escadas da caverna até um dia convencer os escravos atados lá ao fundo na cidade, olhando para as sombras e comentando-as como se as suas opiniões passageiras fossem a verdade indiscutível, e num relance viu milhares olhando para televisões…

Pensou que iria de ter descer as escadas da caverna enquanto via alguns mestres da ilusão movimentando as sombras que confundiam os milhares de escravos atados lá no fundo da cidade.

E desceu as escadas, pé ante pé, mergulhando na sombra dos carvalhos até ser quotidianamente normal de novo.

Entrou no automóvel e a primeira coisa que pensou foi nela, na sua cara de ninfa linda de cabelos ondulados, por esta altura tomando banho de chuveiro, enquanto a cidade em redor adormecia colectivamente.

De passagem, atravessando o olhar nos vidros do automóvel que ia avançando na estrada, via desfilar ante ele cenários difusos e pessoas anónimas, placards publicitários e grandes edifícios de empresas anódinas.

Os reflexos da cidade passavam no seu olhar claro e calmo, atravessando as ruas e as avenidas, descido já o monte do rio Ol.

…Ser seria calar e viver como todos no formigueiro, servir até chegar ao dia derradeiro e depois, e depois…

O sol era um círculo de fogo sorrindo.

Pensando nestas coisas limpou uma lágrima, carregou no acelerador e foi à procura de emprego desaparecendo na selva de betão da cidade.

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