— Por favor, moço, me ajuda. Estou com meu marido e minha filha aqui, nós precisamos voltar para Barra do Piraí, viemos pro enterro da minha irmã. A gente foi assaltado perto da rodoviária, não conseguimos comer nada hoje… Por favor.
Qualquer um se compadeceria com a cena. Era uma mulher com as feições tristes, uma criança de não mais que dois anos no colo; o rapaz, ao lado, com um rosto envergonhado, como se estivesse se culpando por colocar a esposa naquela situação constrangedora. Mas é que tem horas que a necessidade aperta e a vergonha afrouxa. Assim abordavam um homem envergando um belo terno cinza na porta de um restaurante em pleno centro do Rio de Janeiro, quase no fim de tarde. Era um dia comum, começo de ano, o movimento por aquelas ruas andava pouco.
O homem olhou bem para aquele grupo humano, como a tentar adivinhar-lhes as necessidades. Nem a cena da manjedoura, sem aquele tom de súplica na voz da mulher segurando a criança, seria tão comovente. Por instantes, veio à mente do homem a imagem de sua própria mãe, quando realizava intensos sacrifícios para que ele e seus irmãos estudassem, na cidade do interior em que moravam. Não era próximo de Barra do Piraí, que ele sequer conhecia, mas algo lhe tocara naquele pedido.
Num transeunte em quem já houvesse morrido a compaixão, a abordagem da mulher seria mero incômodo. Mas o jeito que ela falara despertou a atenção do homem e, ao fim da súplica, ela tinha sua solidariedade.
— Creio não ter disponibilidade maior do que esta no momento — disse, tirando do bolso uma nota de cinquenta que, discretamente e sem qualquer ar de altivez, passou à mão que pedia.
— Muito obrigado, moço. Que Deus te abençoe abundantemente!
Saíram, o casal e a criança, andando a passos ligeiros. O homem ainda uma vez fitou-os, entendendo que a rapidez na marcha equivalia a escapar da humilhação do pedido, que não era amenizada pela generosa doação.
A poucas centenas de metros de onde se desenrolara a cena, o rapaz, a mulher e a criança tomavam um ônibus com direção ao subúrbio carioca do Irajá. Chegaram umas duas horas depois. Dirigiram-se, a pé, a uma casa que ficava a um quarteirão do ponto.
— Olá, pessoal! Que bom que vocês chegaram. Já ia preparar o jantar. A Laurinha deu trabalho?
— Não, ela é uma graça, super quietinha! Amanhã podemos ficar com ela de novo pra você trabalhar, mana.
— Espero não estar abusando de vocês…
— Não, de jeito nenhum. A gente dá umas voltas pra ela se distrair; ficamos a tarde toda batendo perna na rua e nem vimos a hora passar, acredita?
A criança era filha da dona da casa, com quem o casal de namorados morava. Enquanto ela se entregava à faina diária, de auxiliar de serviços gerais numa empresa do bairro, o casal saía com a neném para diferentes pontos do Rio de Janeiro para aplicar pequenos golpes, aproveitando-se da aparência de família necessitada.
Só com a história do enterro e da volta para Barra do Piraí após um assalto, naquele dia, haviam faturado mais de quatrocentos reais…
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Daniel Marchi (@prof.danielmarchi) é editor-executivo de Notibras.com onde, com Eduardo Martínez e Cecília Baumann, comanda o Café Literário. Carioca, é advogado e professor. Poeta, escreveu os livros “A Verdade nos Seres” e “Território do Sonho” (no prelo).
