Rute era uma cozinheira de mão cheia. Gostava de preparar almoços demorados e convidar os amigos para os sábados em sua casa, sempre animados por boa comida, conversa alta e muitas gargalhadas.
Um de seus convivas mais chegados era Humberto, amigo fiel da igreja, que frequentava regularmente seus rompantes culinários.
Em uma das reuniões de irmãos na igreja, Humberto confidenciou a Rute que estava com namorada nova. Seu nome era Denise, uma moça mais jovem que, de acordo com suas palavras, conheceu nos “Facebooks da vida”. Queria apresentá-la oficialmente e aproveitar um desses sábados gastronômicos, regados a muita conversa, para introduzir a moça no seu grupo seleto de amigos.
— Quero apresentar Denise a você e aos nossos chegados. Eu poderia levá-la em um desses encontros em sua casa? Não quero ser inoportuno, Rute!
Surpresa com a notícia e não podendo recusar o pedido do amigo, a mulher respondeu simpática:
— É claro, Humberto. Fico feliz por você, leve sua namorada em nosso próximo almoço e parabéns, meu amigo!
No dia do encontro na casa de Rute, alguns amigos foram chegando, entre eles, Humberto e Denise, a nova namorada. A conversa se desenvolvia com Denise muito receptiva, sorridente, aparentando estar um pouco nervosa, o que era natural. Sentia os amigos de Humberto olhando para ela com curiosidade, que estava sendo avaliada.
— Esses amigos da igreja… rezam tanto, tanta pregação de amor, mas na prática adoram julgar a vida do próximo, vão ficar falando de mim e tricotando entre eles — pensava, em silêncio, a namorada de Humberto.
Uma maravilhosa bacalhoada foi posta à mesa. A cada garfada, os amigos comentavam:
— Que delícia, Rute! Você se superou.
— Que bacalhau divino!
Todos à mesa comiam felizes e elogiavam o capricho de Rute, inclusive Humberto, revelando que há anos comia essa bacalhoada pelas mãos da amiga e nenhuma outra se igualava.
Rute ria e agradecia, satisfeita com o efeito da própria obra.
Denise baixou os olhos para o prato. Era, de fato, uma comida excelente, mas nada que lhe parecesse impossível. Observou tudo com atenção: os pimentões coloridos, o queijo gratinado, as cebolas em tiras, as ervilhas, as finas lascas de maçã-verde, os ovos, o purê, as azeitonas, o bacalhau em postas generosas, o sal no ponto.
Muito gostoso, pensou. Mas também não é nenhum milagre.
— Em breve será a Páscoa e prepararei um almoço especial para Humberto. Farei uma média e vou impressionar.
Entre conversas e cafezinhos, Denise, querendo criar laços e agradar a anfitriã, falou em cochicho:
— Dona Rute, que bacalhau maravilhoso. Por favor, me ensine a fazer. Vou preparar o almoço de Páscoa na minha casa. Humberto gosta tanto de sua bacalhoada, que eu gostaria de proporcionar uma surpresa para ele.
Rute agradeceu o elogio com um sorriso discreto, passando por sua cabeça, não sem achar graça, que Humberto arrumara uma namorada de trinta anos para ficar chamando-a de “dona”. Tanto prato para fazer e a novata queria competir logo com o dela! Humberto deixara claro que só comia bacalhau ali, essa namorada queria era fazer graça.
— Claro querida, vamos para a cozinha, que rapidamente mostro a você, não tem mistério nenhum, só não repare a bagunça.
Chegando à cozinha, Rute explicou rapidamente a receita, fez a lista de ingredientes, repassando aqueles que Denise vira no prato.
Explicou como cortar as batatas, a finura das lascas de maçã, cebolas em tiras grossas, os ovos cozidos colocados ao final, para não ficarem borrachudos.
— É cozinhar o que é para cozinhar, juntar tudo na travessa e levar ao forno para finalizar.
Denise, sem intenção, fez um comentário um tanto indelicado para uma recém-chegada no seu papel de agradar:
— Nossa, muito fácil! Não tem razão nenhuma do Humberto só comer aqui um prato simples de ser feito como esse.
No encontro semanal da igreja, Humberto agradeceu a hospitalidade de Rute e fez o convite oficial para comemorar a Páscoa.
— Gostaria de convidar a todos para o almoço de Páscoa lá em casa, a Denise será a “chef da cozinha”, vai preparar uma deliciosa bacalhoada.
No Domingo de Páscoa, Rute chegou pontualmente à casa do amigo. O local estava bem cuidado, uns petiscos sobre a mesa, tudo muito bonito e bem preparado. Viu Denise cheia de expectativas, de avental, feliz em ser a anfitriã na casa do namorado, impressionando de todo jeito possível os seus amigos.
Enquanto conversavam e serviam-se de petiscos, o aroma do bacalhau perfumava a casa. Denise, feliz e confiante, colocou a travessa de bacalhoada, o arroz branco e a salada no aparador, junto dos pratos e talheres. Observou com orgulho o sorriso de satisfação de Humberto e pensou:
— Humberto não vai mais precisar das amigas para ter uma refeição especial, agora eu estou aqui!
Todos a postos em volta da mesa, clima fraterno e descontraído, e a primeira garfada foi de Humberto, seguido dos demais convidados. O que se viu depois foi um silêncio constrangedor! O sal, em seu estado puro, gritante, esmagava impiedosamente todos os temperos feitos detalhadamente e postos sobre a obra-prima de Denise. Ela, desesperada e em choque, olhou para Rute como quem pedia socorro silenciosamente.
— Pessoal, essa comida está sal puro — disse Denise, envergonhada, beirando as lágrimas.
Rute, com um sorriso travesso, disfarçou um contentamento inconfessável.
— Ah, querida! O bacalhau precisa ser dessalgado pelo menos dois dias antes. Pensei que sabia disso.
Denise estava em choque, enquanto os convidados procuravam conter o riso. Rute abraçou Denise com ternura impecável, embora gargalhando na alma, e disse à anfitriã que tinha os olhos marejados:
— Não fique chateada, cozinhar também é um relacionamento. A gente aprende, acerta o sal, fazemos de novo até ficar no ponto.
Esse Domingo de Páscoa se tornou um clássico a ser relembrado por aquela gente em seus encontros e em suas memórias gastronômicas. Denise conseguiu o seu intento de deixar uma marca na bacalhoada de Páscoa de seu namorado, por toda a vida!
Quanto a Rute… saiu intacta, com a delicadeza dos inocentes e a malícia dos culpados. Que canalha!
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Fabiana Saka (@fabianasaka), escritora e psicóloga clínica no Rio de Janeiro, é autora de “As Aventuras de Daniel – não tenha medo de si mesmo” (Ed. Ases da Literatura, 2024), e colaboradora do Café Literário.
