Era uma noite sem lua no porto de Lisboa, daquelas em que o Tejo fica tão preto que parece espelho do céu.
Eu estava num boteco antigo, quase escondido entre a Alfama e o Cais do Sodré, tomando um copo de vinho verde que cantava na garganta.
De repente, a porta abriu com vento de mar e entraram todos.
Não pediram licença.
A casa era deles também.
Primeiro chegou Luís de Camões, de tapa-olho e capa rasgada, carregando Os Lusíadas debaixo do braço como quem carrega uma ferida aberta.
Sentou-se na cabeceira e disse, rouco:
“Perdi um olho em Ceuta,
perdi a pátria em Macau,
perdi o juízo por amor,
mas ganhei dez cantos que ainda fazem Portugal chorar de saudade de si mesmo.”
Ao lado dele, Fernando Pessoa já estava em quatro lugares ao mesmo tempo.
O próprio, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro tomavam ginginha em copos diferentes.
Álvaro gritava: “Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal!”
Ricardo respondia: “Calma, rapaz, tudo é inútil.”
Caeiro apenas olhava pela janela e dizia: “O Tejo é mais bonito que o rio que corre pela minha aldeia,
mas o Tejo não é mais bonito que o rio que corre pela minha aldeia
porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.”
E o próprio Pessoa, quieto, anotava tudo num guardanapo.
José Saramago entrou depois, com passos lentos e voz de profeta cansado.
Pediu um copo d’água (só água) e falou:
“Eu vim de Azinhaga, onde o rio era de lama e o céu de esperança.
Escrevi cegueira, morte com suspensas, jangadas de pedra,
porque a única maneira de salvar o mundo
é contar que ele está perdido.”
De Luanda chegou José Eduardo Agualusa, trazendo cheiro de capim e de revolução.
Riu alto:
“Em Angola a gente aprende cedo que a história é um cão que morde o próprio rabo.
Eu escrevi sobre rainhas gingas, sobre nações que nascem em hotéis,
porque a África não cabe em fronteiras desenhadas por bêbados em Berlim.”
Mia Couto desceu de um avião que não existia, vindo de Moçambique.
Trouxe areia nas sandálias e um sorriso que desarma guerras.
“Na minha terra as palavras têm alma própria.
O rio fala, a árvore lembra, o morto vem tomar café.
Escrevo para que o português aprenda a ser africano
e a África aprenda a ser portuguesa
sem perder o sotaque de nenhuma.”
Pepetela sentou-se ao lado dele, ainda com pó de guerra civil.
“Eu lutei com arma na mão,
depois lutei com caneta.
A arma cansou, a caneta não.”
De Cabo Verde chegou Germano Almeida, de chinelo de dedo e camisa florida,
contando anedotas antes mesmo de cumprimentar.
“Em São Vicente a vida é tão lenta
que o tempo pede licença pra passar.
Escrevi O Testamento do Senhor Napumoceno
para provar que até um rico avarento
morre rindo quando a ilha quer.”
De Guiné-Bissau, Abdulai Silá chegou quase em silêncio,
mas quando falou foi como trovão baixo:
“Nós fomos a última colônia a ser livre
e a primeira a descobrir que liberdade também dói.
Escrevo para que o crioulo tenha orgulho
de ser língua de gente grande.”
E, de repente, o bar ficou pequeno demais.
Porque entrou Clarice Lispector, brasileira de coração ucraniano,
e sentou-se no colo de Camões sem pedir licença.
“Eu nasci num lugar que não existe mais
e escrevi em português como quem sangra.
A paixão segundo G.H. não é livro,
é exorcismo.”
Chico Buarque chegou cantando baixinho “Construção”,
e o próprio Saramago bateu palmas no ritmo.
Paulinho da Viola apareceu só pra fazer segunda voz.
E então, no canto mais escuro,
apareceu Agostinho Neto, médico e poeta, primeiro presidente de Angola livre.
Ergueu o copo e disse apenas:
“Havemos de voltar
às terras onde nascemos
mesmo que tenhamos que nascer de novo.”
Todos se calaram.
Até o mar lá fora parou de bater no cais.
Quando amanheceu, o boteco estava vazio.
Só ficaram os copos, as cadeiras tortas
e um guardanapo onde alguém (talvez todos) escreveu:
“Nós não falamos a mesma língua.
Falamos cinco dialetos de uma única saudade.
Português de Lisboa, do Rio, de Luanda, de Maputo, de Bissau,
de Mindelo, do Recife, de Coimbra.
Todos com sotaque de exílio e de casa.
Todos com gosto de mar e de terra vermelha.
Todos com vontade de ficar
e vontade de partir.
A mesa continua posta.
O vinho não acaba.
A conversa recomeça
todas as noites,
em todos os portos do mundo
onde alguém abre um livro
e ouve, lá dentro,
o coração batendo
em crioulo,
em banto,
em tupi,
em português errado
e absolutamente perfeito.”
Saí para a rua quando o sol nascia sobre o Tejo.
E soube, com uma certeza que não explica,
que aquela mesa nunca fecha.
Basta chegar,
pedir um copo,
e começar a contar
sua própria história
na língua que doer mais bonito.
Porque, no fim das contas,
todos nós
somos apenas
continuação
daquele primeiro verso
que Camões perdeu no mar
e o mar devolveu
em milhões de vozes.
