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A MULHER QUE ARRANCAVA SOBRANCELHAS

Todos os dias a mesma dor.

O puxão forte, decisivo. ZÁS!

Ui…

Ao longo dos dias virou ritual.

Anacleta – o nome já é absolutamente improvável – acordava e ia ao banheiro; mixava em jorros e antes de escovar os parcos dentes que lhe restavam, Ana mirava aquela figura no espelho:

“Eu sou a Ana. Você, verme imunda, você é a Anacleta”.

Todos os dias.

Após a encarada porrada, o ritual de dor e libertação.

Ana juntava os fios da longa sobrancelha e… ZÁS! … arrancava sem dó ou temor.

E assim foi.

Arrancou as duas sobrancelhas até a raiz dos pelos. Depois partiu para os cabelos.

No espelho, Anacleta ria:

“Ainda bem que você é peluda! Vai, Loka, vai arrancando”.

E Ana foi arrancando todos os pelos que encontrava pelo corpo “proibido”, ainda incólume, indevassável aos 70 anos de idade.

Certo dia, Ana chegou nas “partes íntimas”.

ZÁS!

Parou e travou.

“São tão bonitos…loirinhos… não tenho coragem”.

Numa tarde de Sol rachando, os vizinhos sentiram um forte cheiro de alfazema no ar e chamaram os bombeiros.

Encontraram Ana deitada, nua e nas mãos um aparelho de barbear

O bilhete definitivo daria sentido à trama:

“Amados, limpei tudo o que pude, mas com a periquita é preciso amor, carinho, dignidade. tecnologia é fundamental”.

Os dias seguiram lentos e cheio de histórias na Guarda do Embaú SC.

Ana/Anacleta virou mito urbano e, hoje, a maioria das mulheres nativas não fazem mais a “barba” da periquita.

Libertaram-se.

………………………….

Gilberto Motta é escritor, jornalista e professor/pesquisador que há anos deixou de fazer a barba. Vive na Guarda do Embaú SC.

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