Ela entrou na sala um pouco tímida, pisando leve como uma bailarina. Chegou sem pressa, como se o tempo tivesse aprendido com ela a caminhar devagar. Havia qualquer coisa de mar em seus modos. Talvez o sotaque da musicalidade carioca que não precisava levantar a voz para ser notada, ou talvez o modo como as palavras saíam arredondadas, mornas, lembrando a brisa de fim de tarde que atravessa a orla quando o sol já começa a dourar os prédios e a pele de quem passa. Era impossível ouvi-la sem que viesse à memória a antiga melodia de uma garota que atravessa calçadas sob olhares distraídos e inevitavelmente rendidos.
Culta sem exibir cultura, inteligente sem a menor necessidade de provar inteligência, ela citava, como num sussurro, um poeta como quem comenta o sabor do café; falava de cinema, de política, de música, de silêncio. Sobretudo de silêncio, como se soubesse que certas pausas dizem mais do que longos discursos. Tinha o raro dom de escutar com os olhos, e talvez por isso seus olhos brilhassem como dois focos de luz morena capazes de desorganizar pensamentos alheios com uma serenidade quase estudada.
O corpo parecia ter sido desenhado com paciência, em curvas que não pediam licença nem licença precisavam pedir. Bronzeado de um dourado discreto, sem excessos, trazia aquela cor de quem conhece o sol sem brigar com ele. Havia harmonia em cada gesto, como no modo de cruzar as pernas, de tocar a borda da taça, de recolher uma mecha de cabelo atrás da orelha, sempre com a naturalidade de quem desconhece o efeito que provoca ou, mais provavelmente, conhece e apenas prefere não confessar.
Os cabelos, cortados um pouco além do clássico Chanel, deixavam a nuca descoberta como um detalhe involuntário, mesmo que nela nada parecesse realmente involuntário. A nuca surgia como um breve convite à distração, dessas pequenas geografias que os olhos percorrem antes que a razão recomponha a disciplina. E ali, nesse quase nada de pele à mostra, morava um tipo raro de elegância. Era a arte de sugerir sem jamais se oferecer por inteiro.
Ela tinha ombros que pareciam guardar segredos e um modo muito particular de sorrir. Primeiro com os olhos, depois com os lábios, como se o sorriso precisasse amadurecer antes de nascer completo. Quando sorria, não era gargalhada, mas uma curva breve, suficiente para alterar a temperatura do ambiente, como se até o ar hesitasse antes de seguir seu curso normal.
Chamavam-na de zen porque nunca parecia perder o eixo. Mesmo quando contrariada, respondia com calma; mesmo quando desejada, mantinha a delicadeza de quem sabe exatamente o efeito que provoca e escolhe não exagerar. Seduzia sem urgência, sem promessas, sem precisar ocupar o centro da sala. Para ela, bastava estar.
E talvez fosse justamente isso o mais perturbador, porque nela, a serenidade não anulava o fogo. Apenas o escondia sob camadas de voz baixa, inteligência aguda e uma elegância que transformava qualquer conversa comum numa espécie de lento encantamento, desses que se instalam devagar e, quando percebidos, já comprometeram a lucidez de quem julgava estar imune.
Havia mulheres que chegavam na sala como tempestade. Ela, não. Simplesmente abria a porta como um perfumado fim de tarde em Ipanema. Dourada, serena e irresistível, a Mulher Zen era perigosamente memorável.
E havia ainda um detalhe que a tornava quase perigosa. Era a calma de quem parecia saber que o mundo, apesar de barulhento, sempre acaba se curvando diante de uma mulher que domina o silêncio. Enquanto muita gente entrava nos ambientes como quem anuncia guerra, ela se instalava como quem muda discretamente o eixo da sala; e, quando saía, deixava atrás de si um rastro de perfume, inquietação e pensamentos desalinhados, como se alguns homens, subitamente, precisassem reaprender a respirar antes de regressar à mediocridade habitual representado por um lugar cinzento onde quase todos fingem firmeza, mas desabam diante de um olhar que sabe mais do que revela.
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José Seabra é CEO Fundador de Notibras
