A naja estava mudando de pele. À semelhança da sociedade em crise descrita por Gramsci, o velho havia morrido – a antiga pele se soltara, aos pedaços – mas o novo ainda não nascera – a pele renovada mal começara a cobrir o 1,2 metro de serpente. A naja desnuda deslizava pelo quarto do hotel barato junto ao porto, tão letal quanto antes da muda. E dormia no sofá, seu local predileto na residência provisória.
Haroldo montou cuidadosamente, na sala, as escamas azul-escuras; parecia que o bicho estava vivo. Todo dia as umedecia, para que conservassem um mínimo de brilho. Caprichava especialmente no capuz ou capelo, com grandes pontos escuros em fundo amarelo – os “olhos da morte”, costumava chamá-los. Havia também “olhos” na parte da frente do capuz, que cresciam quando a cobra o inchava, para anunciar o bote e afastar alguma ameaça.
Haroldo sempre tivera fascinação por serpentes. Cuidava de capuzinho amarelo, como a chamava – versão ofídica de chapeuzinho vermelho – desde que a recebera, com bem menos de 1 metro, de um amigo vindo da Tailândia. Sabia proteger-se, manejava bem o ferro apropriado para dominar serpentes, tinha sempre à mão ampolas de soro antiofídico e a prendia num estojo, antes de dormir. Um de seus prazeres era provocá-la para que erguesse a parte superior do corpo e inchasse o capelo para o ataque, silvando de raiva. Outro prazer era fazer sexo, preferencialmente com homens. Um terceiro, recém-descoberto, era matar.
Começara por acidente. Saíra de um bar de pegação com um carinha, para uma transa casual, e o doidivanas lançara-se voluptuosamente no sofá, onde a naja dormia. Assustada, a cobra cravou-lhe as presas. Haroldo bem que tentou pegar o soro, mas ele morreu quase imediatamente, de um ataque cardíaco. Desceu amparando o corpo, como se o parceiro estivesse bêbado; o porteiro do hotel de viração mal olhou para os dois. Levou o cadáver até o cais e jogou-o ao mar.
De volta ao hotel, reviu centenas de vezes, em sua mente, os olhos apavorados e o rosto da vítima, contorcido num esgar de medo e de dor. Descobriu que queria mais doses daquilo. Logo em seguida, montou os pedaços de pele na sala.
Na noite seguinte, voltou ao bar de pegação. Flertava com os carinhas e, quando tinha alguém na mira, convidava:
– Vamos lá em casa. Você vai ver a naja desnuda.
Falava rápido de propósito. A maioria entendia “Nádia”. Alguns se ofendiam: “imagina, me convidar para ver uma mulher nua, affe!”. Outros topavam a ideia de uma festinha com a tal de Nádia e o bofe. E alguns, mais cultos, imaginavam uma boa trepada sob o olhar indiferente da Maja desnuda, cópia da pintura de Francisco de Goya, que se encontra no Museu do Prado, em Madri.
De início, o esquema funcionou às mil maravilhas. O carinha entrou, viu a pele da cobra, quase morreu de susto, pulou sobre o sofá, para escapar da serpente, e foi mordido pela naja. Tentou fugir, mas Haroldo bateu-lhe na cabeça com uma barra de ferro. E em seguida acompanhou, prendendo a respiração, os olhos presos no rosto da vítima, a agonia, em meio a dores excruciantes, e a morte. O assassino da naja ficou excitadíssimo, mal conseguiu dormir.
O cadáver ficou pelo chão, ninguém mudava mesmo a roupa de cama ou arrumava o quarto. Depois, quando acordou, escondeu a carcaça embaixo da cama, umedeceu as escamas, soltou capuzinho amarelo e esperou anoitecer. Foi a outro bar e não teve dificuldade em arranjar companhia.
Só que o bofe, em vez de se assustar e pular para cima do sofá, chutou a cabeça da “cobra”, que voou longe. Olhou melhor, viu que era apenas pele e voltou-se, furioso, para Haroldo:
– Que porra é es…?
Não terminou a frase. Foi abatido pela barra de ferro, morreu na hora. Seu assassino não sentiu o menor prazer, não houve medo nem agonia para acompanhar.
“Vou embora amanhã”, pensou. O primeiro cadáver tá começando a feder; com o segundo, vai ficar irrespirável”.
Guardou a naja num estojo, suas poucas roupas em uma maleta de mão, queimou os restos de pele e foi descansar um pouco. Ninguém sabia seu nome, não mostrara identidade ao entrar, apenas pagara adiantado. Mesmo assim, era prudente mudar de cidade. Por sorte, o país tinha um litoral extenso, não faltavam portos, com bares de pegação e hotéis de quinta categoria. Porque, tinha certeza, ele, com a barra de ferro e a assistência involuntária de capuzinho amarelo, jamais iria parar.
