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À Queima-Roupa — O Caso Pimenta Neves

O Poder da Narrativa

Fico impressionado — e confesso que isso sempre me dá enorme prazer — quando me deparo com autores capazes de nos transportar diretamente para dentro dos ambientes e das paisagens que descrevem. Assim faz Vicente Vilardaga logo nas primeiras páginas de À Queima-Roupa.

“Era um dia de domingo de agosto do ano de 2000. O céu azul se escancarava quase sem nuvens e amanhecia com um delicioso ar fresco…”

Com essa abertura, o autor nos conduz de forma quase cinematográfica ao interior do Haras Setti, naquele dia fatídico em que Sandra Gomide foi covardemente assassinada.

A força descritiva de Vilardaga remete a escritores como Bernardo Guimarães e Ernest Hemingway, autores que dominam a arte de criar atmosferas vivas e imersivas.

Contexto Histórico e Econômico

Para além da qualidade narrativa, o livro oferece uma rica retrospectiva do Brasil na segunda metade dos anos 1990. O autor contextualiza o leitor com precisão, abordando:

* O início do Plano Real;
* As privatizações durante o governo de Fernando Henrique Cardoso;
* A crise das grandes companhias aéreas e seus impactos sociais.

Esses elementos ampliam a obra, que deixa de ser apenas um relato criminal e se torna também um retrato de época, ajudando o leitor a compreender o ambiente em que os fatos ocorreram.

Bastidores do Jornalismo

Outro aspecto notável é o profundo conhecimento de Vilardaga sobre os bastidores das redações de grandes jornais brasileiros, como o O Estado de S. Paulo e a Gazeta Mercantil.

O autor descreve com precisão o período em que Antônio Marcos Pimenta Neves atuou como editor-chefe e diretor de redação, revelando um ambiente marcado por:

* arrogância
* prepotência
* autoritarismo
* nepotismo

Além disso, expõe como o jornalista utilizou seu poder e posição para se aproximar e envolver-se com Sandra Gomide, trinta anos mais jovem.

Poder, Violência e Queda

O livro também evidencia o quanto são influentes aqueles que comandam a grande imprensa nacional. Pimenta Neves, ciente desse poder, revela-se uma figura muito distante da imagem pública de homem culto e equilibrado.

Vilardaga, com coragem e rigor, nos apresenta um retrato inquietante: um homem que, ao fim de um relacionamento, passa a perseguir Sandra de diversas formas, até consumar o assassinato.

Há, inclusive, uma associação possível com Rodion Raskólnikov, de Fiódor Dostoiévski — a ideia de que certos indivíduos “superiores” estariam acima das leis. Uma ilusão perigosa que, na vida real, culmina em tragédia.

Conclusão

À Queima-Roupa é mais do que um relato de crime: é uma obra que combina literatura, jornalismo investigativo e análise social. Vicente Vilardaga conduz o leitor por uma narrativa envolvente, revelando não apenas os fatos, mas também os bastidores, as relações de poder e as fragilidades humanas que levaram a um desfecho brutal.

Trata-se de um livro que merece, sem dúvida, leitura atenta e lugar de destaque na estante, tanto pela relevância do tema quanto pela qualidade da escrita.

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Daniel Barros é policial, escritor e fotógrafo alagoano residente em Brasília.

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