Notibras

A sala que nunca fecha

Era uma noite de quinta-feira em que São Paulo parecia ter engolido o próprio barulho.

Eu estava num barzinho escondido na Augusta, daqueles que têm mesa de sinuca quebrada e paredes cobertas de pôsteres rasgados.

O garçom já conhecia meu pedido: café preto sem açúcar e silêncio.

Mas naquela noite o silêncio não veio sozinho.

Veio acompanhado.

A porta rangeu e entraram todos de uma vez, como se tivessem combinado há cem anos.

Não couberam nas cadeiras, então ocuparam o ar.

E começaram a conversar como quem retoma uma prosa interrompida ontem.

Machado de Assis chegou de bengala, mas sem pressa de usá-la.

Sentou-se no balcão e pediu um conhaque que ninguém serviu.

Olhou para mim e disse, quase sussurrando:

“Você acha que eu era cínico?

ou apenas o único que enxergava o circo inteiro

enquanto os outros aplaudiam o palhaço?”

Ao lado dele, Clarice Lispector já estava descalça,

os pés em cima da cadeira,

olhando para o teto como quem procura uma barata metafísica.

“Eu não escrevia sobre a vida,

escrevia dentro dela.

Às vezes a vida reclamava que doía.”

Graciliano Ramos entrou carrancudo,

mas com um brilho de menino no olho.

Pediu cachaça pura e falou seco:

“Em Alagoas a seca é tão antiga

que até a esperança aprendeu a economizar água.

Por isso escrevi Vidas Secas:

para mostrar que até o silêncio late.”

Lima Barreto chegou atrasado,

com o paletó puído e a raiva inteira.

Bateu na mesa:

“Eu era mulato, pobre e doente.

Três pecados imperdoáveis no Rio de 1910.

Escrevi o Triste Fim de Policarpo Quaresma

para provar que o Brasil mata quem o ama demais.”

Rachel de Queiroz sentou-se no chão,

de pernas cruzadas,

e começou a desenhar letras no ar com o dedo.

“Eu nasci judia na Paraíba.

Já viu combinação mais improvável?

Escrevi O Quinze porque a seca não escolhe religião,

mas escolhe quem morre.”

Carlos Drummond de Andrade apareceu de óculos embaçados

e um sorriso tímido.

“Eu era funcionário público em Itabira

e escrevia poesia no banheiro do ministério.

Quando publicaram Poema de Sete Faces,

meu chefe perguntou se eu estava louco.

Respondi: apenas mineiro.”

Cecília Meireles chegou flutuando,

literalmente três centímetros acima do chão.

Trouxe um ramalhete de versos que ninguém viu,

mas todos sentiram o perfume.

“Eu escrevia para crianças

porque só elas ainda acreditam

que a palavra pode mudar o mundo

antes de aprenderem que não pode.”

Jorge Amado entrou com cheiro de dendê e riso fácil.

Abraçou todo mundo, até o garçom que não existia.

“Eu só fiz o que meu povo já fazia na boca:

contar história.

Capitães da Areia, Gabriela, Tieta…

todos moram na mesma rua de Santo Amaro

e tomam cerveja juntos até hoje.”

Rubem Fonseca chegou de mãos nos bolsos,

olhar de quem já viu cadáver demais.

“Eu inventei o crime no Brasil literário

porque o Brasil real já tinha inventado

antes de mim.”

Adélia Prado apareceu de avental,

como se tivesse acabado de tirar um bolo do forno.

“Eu sou devota de dois santos:

Nossa Senhora e o português bem falado.

Escrevo porque Deus é tão grande

que cabe até dentro de uma dona de casa de Divinópolis.”

João Guimarães Rosa chegou montado num cavalo que ninguém viu.

Falava difícil, mas o coração entendia tudo.

“Sertão é dentro da gente.

Riobaldo sou eu,

Diadorim é você,

o diabo é o medo de amar.”

Hilda Hilst entrou nua por baixo do sobretudo,

como sempre.

Riu alto:

“Eu escrevi pornografia sagrada

porque o corpo também reza.

E Deus, esse safado,

gosta.”

Paulo Leminski chegou de skate,

aos 70 anos de idade que não viveu.

Distribuiu haicais como quem distribui bala.

“Eu queria ser leve

num país que adora peso morto.”

Ana Cristina Cesar entrou em silêncio,

deixou um bilhete na mesa e saiu.

O bilhete dizia apenas:

“Escrevo para não explodir.

Explodo mesmo assim.”

E, no canto, quase invisível,

Patrícia Galvão — Pagu — fumava o cigarro que nunca acendia

e olhava para todos com um orgulho feroz.

“Vocês são meus filhos bastardos e legítimos.

Continuem escrevendo.

O Brasil ainda precisa sangrar um pouco mais

para aprender a ser gente.”

Quando o relógio marcou três da manhã,

o barzinho estava lotado de fantasmas vivos.

Ninguém pagou a conta.

Ninguém precisava.

Saí para a rua e a cidade inteira parecia ter ouvido a conversa.

Até os postes de luz piscavam em compasso de verso.

E eu entendi, finalmente,

que a literatura brasileira não é um rol de nomes mortos.

É uma sala imensa,

com a porta sempre aberta,

a luz sempre acesa,

e uma placa na entrada que ninguém escreveu,

mas todos leem:

“Aqui se fala português errado,

se ama torto,

se sofre bonito

e se morre de rir.

Entre sem bater.

Tem café fresco

e história para o resto da vida.”

E eu entrei.

E fiquei.

E ainda estou lá…

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