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A Solidão Como Luxo

A solidão pode ser um luxo, Clarice tinha razão. Não a solidão imposta, nem aquela que nasce do abandono, mas a solidão escolhida, consciente, construída como espaço de escuta e preservação. Nós aprendemos, com o tempo, que estar só nem sempre significa falta; às vezes, significa excesso de nós mesmas finalmente em ordem.

Vivemos numa cultura que trata a companhia como prova de valor. Estar acompanhado é sinônimo de sucesso afetivo; estar só, indício de fracasso. Clarice nos ensinou o contrário: a solidão pode ser um território fértil, onde a vida deixa de ser ruído e passa a ser pensamento. E nós confirmamos isso quando percebemos o alívio de não precisar performar, explicar, justificar.

A solidão-luxo não é isolamento, é escolha. É quando decidimos não preencher o silêncio com presenças inadequadas. É quando preferimos a própria companhia a relações que exigem concessões demais. Nós aprendemos que nem toda convivência soma e que nem toda ausência dói. Algumas ausências organizam.

Estar só, nesse sentido, é um gesto de autonomia. É cuidar do próprio tempo, do próprio corpo, do próprio pensamento. É permitir que a vida se revele sem interferências, sem o olhar constante do outro regulando nossos afetos. Clarice escreveu sobre esse espaço íntimo onde a alma respira; nós o vivemos quando a solidão deixa de ser castigo e se torna refúgio.

Há um tipo de maturidade que só se alcança quando conseguimos ficar sozinhas sem nos sentirmos incompletas. Quando a solidão não é espera, mas presença. Quando não buscamos alguém para nos salvar do vazio, porque entendemos que o vazio também ensina. Nós descobrimos que a solidão pode ser rica, elegante, silenciosamente poderosa.

Por isso, quando escolhemos a solidão, não estamos desistindo do amor. Estamos refinando o critério. Não rejeitamos vínculos; recusamos qualquer vínculo. Preferimos o luxo de nos escutar ao barulho de relações que nos desorganizam.

Clarice tinha razão.

A solidão pode ser um luxo.

E nós aprendemos a usufruí-lo com dignidade.

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