Notibras

A surreal e apaixonante antessala da notícia

Na deliciosa coletânea de reminiscências “Isso a TV não mostra”, a escritora Brígida De Poli nos brinda com inusitadas histórias da sua época de labuta jornalística na RBS TV Florianópolis.

A obra reúne sintéticos relatos carregados de reflexões sobre a lide jornalística e seus bastidores, revelando o dia-a-dia dos profissionais da mídia, suas curiosidades, especificidades e intercorrências.

No prefácio, a autora conta que essa foi uma etapa em que “trabalhou, vibrou, brigou, chorou (muito) e riu (mais ainda)”, já preparando o leitor para a narrativa dos perrengues e dos causos divertidos de que foi participante ou testemunha.

Certamente, assim como ocorreu comigo, os leigos em jornalismo ficarão surpresos com os complexos desafios enfrentados cotidianamente pelos bravos trabalhadores da notícia. Constatarão que, não raro, os mesmos precisam lançar mão de muita criatividade, inabalável resiliência e capacidade impar de superação para bem cumprirem as suas missões.

Dando início aos deliciosos causos contidos na obra, no Capítulo 1 – “Nossos inesquecíveis tipos “fora da casinha”” – a autora relata histórias dos estranhos e delirantes indivíduos que costumam procurar as redações, começando pela visita de ninguém mais ninguém menos que “Jesus Cristo”… haja jogo de cintura, paciência e habilidade psicológica para contornar tal situação, não é mesmo?

Já no Capítulo 2 – “Melhor não ficar sabendo” – a autora compartilha situações que desmentem a visão carregada de glamour com que muitos imaginam a vida de jornalista, assinalando também como eventualmente “desnecessária” a curiosidade nata dos profissionais da área, por exemplo, saber o que ocorre na cozinha do lugar onde almoçamos…argh!

O Capítulo 3 – “Pergunte ao jornalista” – nos dá conta dos perrengues que a fama de “intelectuais sabe-tudo” inflige aos profissionais da notícia, colocando-os com frequência em saias muito justas. Tal situação incômoda, observa, é atualmente atenuada pelo “papai Google” e pelas múltiplas IAs atuantes no pedaço.

O Capítulo 4 – “Reclame aqui!” – traz situações em que os telespectadores e ouvintes atentos (ou não muito) anotam algum suposto erro dos apresentadores e fazem questão de – prazerosamente – formalizar uma reclamação, como ocorreu no caso de uma senhora que admoestou a apresentadora da previsão do tempo que, supostamente, teria falado “menas”, quando, na verdade, a jornalista pronunciou “temperaturas amenas”…sem comentários, concordam?

No Capítulo 5 – “Acredite em disco voador” – a autora sublinha a obrigação do jornalista checar toda e qualquer informação que chegar até os seus ouvidos ou olhos, mesmo que a história pareça inverossímil ou absurda. Aborda também a necessidade de fontes confiáveis, tais como o “garganta profunda” do caso Watergate (grifo meu) ou de um certo “passarinho verde”, informante citado na obra.

Capítulo 6 – “Jogando nas onze”: essa sessão destaca situações em que o jogador (no caso o jornalista) tem o dever de ocupar qualquer função no time. Por exemplo, uma produtora ocupar provisoriamente a função de locutora – mesmo se depois disso sofrer bullying – caso não haja outro jeito de levar a informação aos ouvintes, situação vivenciada pela autora.

O capítulo 7 – “”A “glamurosa” vida de repórter”” é dedicado aos bravos jornalistas de campo, aqueles que tem que se hospedar em hotéis(?) em que o chuveiro libera apenas meia dúzia de pingos de água quase fria e oferecem meio sabonete “Iara” cortado à faca…tudo isso em meio a uma temperatura de quase zero graus. E nesse Capítulo, entre outros episódios deliciosos, a autora também narra o seu encontro com a saudosa Glória Maria e a lição deixada pela grande jornalista.

No Capítulo 8 – “Nossos valorosos auxiliares” – Brígida homenageia o valioso trabalho de apoio dos parceiros dos jornalistas, tais como motoristas e técnicos de rádio. Estes, muitas vezes, salvavam o dia e se tornavam os heróis da missão bem cumprida, mesmo sendo alvos de brincadeiras bem-humoradas de algum jornalista pândego. Cito aqui uma delas, muito hilária: um colega da autora incentivou o incauto motorista a se preparar para um suposto concurso promovido pela NASA que não exigia nível superior para técnico de engraxar o eixo da terra!

Os Capítulos 9 e 10 tratam de temas correlatos entre si: “Quando viramos a notícia” e “Jornalista também chora”.

Aqui, a autora trata dos ossos do ofício, dos espinhos da profissão que deixam marcas profundas no ser humano que ali está fazendo o seu trabalho, infortúnios que acontecem com os próprios profissionais (e viram notícia) e a necessária cobertura de tragédias coletivas que infelicitaram comunidades inteiras.

Dentre outras situações desse gênero, destacou-se a inundação do Vale do rio Itajaí no ano de 2008, calamidade que atingiu vários municípios de Santa Catarina e teve repercussão nacional.

No Capítulo 11, “Recompensas e alegrias”, para além da função universal da imprensa na parceria com o bem comum e seu compromisso com o estado democrático de direito, vemos o lado reconfortante da atividade jornalística para os trabalhadores da mídia: a contribuição pontual para avanços institucionais culturais/comunitários e as conquistas profissionais coletivas da equipe.

Nesse sentido, a jornalista destaca a importância da atuação da sua equipe para o tombamento de uma ilha riquíssima em oficinas líticas e gravuras rupestres no litoral de Santa Catarina, a ilha do Campeche, bem como o trabalho de apoio à preservação das baleias que se reproduzem no litoral catarinense.

De outra feita, também foi motivo para justo júbilo o espaço conquistado pela seção catarinense junto à matriz da Rede Globo no Rio de Janeiro, especialmente a presença permanente da sucursal no prestigiado programa Globo Repórter.

Finalmente, encerrando a primeira parte da obra, no Capítulo 12 – “A gente era feliz e (não) sabia” – a autora destaca a dimensão lúdica e o saudável companheirismo com os colegas durante os seus dezessete anos de trabalho no telejornalismo da sucursal catarinense da Rede Globo. Os subtítulos desse Capítulo, por si só, dão uma ideia do espírito leve que guiou os seus dedos no teclado:

“Nosso amado Tiririca” (o cão mascote), “Aniversários, convescotes, Copa do Mundo, e churrasquinho no Taikô”, “A hora do almoço”, “Excursões movidas a álcool”, “Karaokê e bolo de aniversário” e “As longas festas de fim de Ano”.

Destarte, para o completo desfrute das deliciosas inconfidências contidas nesses trechos, aconselho os leitores a adquirirem a obra ora resenhada.

OBS: na segunda parte, a obra contém ainda interessantes e divertidos artigos com depoimentos de ex-colegas da autora sobre suas aventuras e desventuras na RBS-TV:

1.”Dormindo no emprego” – Márcia Callegaro;

2. “O boneco de ventríloquo” – Giovanna Flores;

3. “A editora-chefe que, na estréia, quase derruba o telejornal – Carmem Lopes;

4. “Perco o emprego, mas não a piada” – Ângelo Ribeiro;

5. “Onde estou? Está tudo tão estranho!” – Fabiano Marques;

6. “Improviso, criatividade e satisfação do dever cumprido” – Anselmo Prada.

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Disponível no site da Editora Insular:

https://insular.com.br/produto/isto-a-tv-nao-mostra-cronicas-e-revelacoes-de-uma-redacao/

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