Notibras

A turma

Após ocuparem os seus aposentos no hotel, Paul e Robert tentavam avaliar a situação e planejar os seus próximos passos naquela inusitada e misteriosa situação. Eram jornalistas experientes, mas nunca tinham vivido algo semelhante.

— Até agora, tivemos a ajuda do acaso e muita sorte, mas nosso tempo nesse trem não é muito longo, disse Paul.

— Sim, logo os verdadeiros Harry Wilson e George Nixon devem entrar em contato com eles ou aparecerem pessoalmente por aqui, aliás, é um milagre que isso ainda não tenha acontecido, concordou Robert.

— Esses dois sujeitos parecem ser bem excêntricos… assim como essa misteriosa organização Agulha e a tal da Turma.

— Para mim, essa trupe está parecendo uma organização internacional de conspiradores milionários e degenerados.

— Também acho! Vamos fazer o seguinte: eu fico aqui no quarto esperando a Heidi trazer os livros e tento extrair mais informações dela, enquanto você dá uma olhada na reunião social das 19 horas. Discretamente, filme tudo o que puder, orientou Paul.

No exato momento em que George-Robert abriu porta para deixar o quarto, Heidi chegou com dois livros nas mãos.

Deliciada, ela achou ótima a ideia de ficar sozinha com “Harry”, enquanto o outro “mestre” iria para o coquetel da Turma com as modelos contratadas.

Após colocar os livros na mesa da cabeceira, Heidi aproximou-se do “mestre” que estava sentado em uma das grandes camas do luxuoso quarto.

— Mestre, estou muito emocionada por privar da sua companhia, como já disse, além de escritor genial e cativante, você também é um homem muito charmoso!

— Obrigado, Heidi, também acho você uma mulher muito interessante! Olha, gostaria de conversar mais com você sobre a Agulha, existem coisas que eu gostaria de entender melhor…

Parecendo não escutar o que “Harry” havia dito, abruptamente, Heidi despiu o vestido e ficou inteiramente nua.

Antes que o perplexo Harry-Paul pudesse dizer alguma coisa, a bela chefe da segurança jogou-se suavemente sobre ele e todo o resto perdeu a importância para eles.

Circulando no coquetel-recepção preparado pela organização Agulha, Robert surpreendia-se a cada minuto com as personalidades famosas que reconhecia entre os membros da Turma.

As belíssimas modelos derretiam-se em amabilidades e sorrisos, exalando inebriantes perfumes que inundavam docemente o ambiente.

Procurando os melhores ângulos para o celular colocado estrategicamente no bolso do paletó, o “mestre” circulava e registrava o mais proximamente possível as expressões extasiadas dos convidados lustres que flertavam com as divas.

Já no quarto reservado aos “mestres”, Harry-Paul e Heidi, após quarenta minutos de puro êxtase, sussurravam palavras doces no ouvido um do outro, quando o celular de Heidi tocou.

— Desculpe, querido, tenho que atender.

— Claro, fique à vontade.

— Sim, Richard? Como é? Mande confinar os dois na sala da segurança, vou interrogá-los pessoalmente depois da palestra dos mestres!

— Problemas? perguntou Paul, tentando parecer despreocupado.

— Imagine, mestre, dois impostores apresentaram-se na recepção alegando serem vocês dois. Devem ser agentes de alguma organização de direitos humanos querendo nos investigar ou jornalistas abelhudos tentando se infiltrar na nossa rede.

Tossindo levemente, Harry-Paul levou a mão à boca e soltou:

— Que absurdo, impressionante a cara de pau de alguns indivíduos.

— Não se preocupe com isso, querido, eles vão ter que me contar direitinho quem são e o que pretendiam com essa ridícula farsa. Agora vou deixá-lo a só para que possa se preparar devidamente para a palestra.

— Obrigado, Heidi, você é um anjo!

— Você é que é um doce muito gostoso, meu querido!

Assim que Heidi saiu do quarto, Paul ligou para o celular de Robert.

—Tudo bem aí? Nosso tempo acabou! Te encontro na portaria, vamos cair fora daqui imediatamente!

Após serem deixados por um táxi no prédio de Paul, os dois amigos continuaram a confabular:

— Então, você filmou tudo mesmo?

— Tenho aqui uma hora de filmagem com todos as caras que já te falei… e muitas outras mais!

— Pena não podermos registrar também a tal “festa” programada para depois da palestra.

— Verdade, mas já temos material para uma história e tanto.

— E o tal livro dos mestres-ideólogos da organização, “O jogo”?

— Aqui estão os dois exemplares que a Heidi me entregou, li rapidamente algumas passagens. É um hino remasterizado à eugenia, ao racismo e ao machismo.

— Você conseguiu tirar mais alguma informação da Heidi sobre a Agulha?

— Na verdade, não deu tempo para isso… aquela mulher é um vulcão incontrolável! Apesar de tudo, meu coração continua batendo por ela!

— Entendo, mas lembre-se, amigo, ela trabalha para nazistas!

— Pois é, paradoxos e impossibilidades da vida, já dizia Fernando Pessoa, suspirou Paul.

Nesse momento, o celular de Paul tocou.

— Oi, é a Heidi… já sei que você não é o Harry Wilson, mas para mim você sempre será “o mestre”! Que tal tomarmos um demorado café amanhã à noite?

Paul nem questionou como a bela Heidi havia descoberto o número do seu celular.

Imaginando todas as possibilidades, intenções e possíveis riscos desse surpreendente e tentador convite, ele sentiu um calafrio e só conseguiu pensar nos versos de Drummond, este sim, um verdadeiro mestre:

— Fugir já não pode… E agora, José???

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J. Emiliano Cruz é autor da coletânea de contos A felicidade e os risíseis amores de todos nós.

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