Notibras

A vampira matutina

No mercado e no sexo, tudo é uma questão de posicionamento.

Luzia estudava Propaganda e Marketing. Ela perdeu o emprego, a faculdade era cara, a grana estava curta, decidiu tornar-se garota de programa. Se deu super bem, era bonitinha e gostosa, fazia de tudo, show de bola, os caras adoravam. Mas, com um ano daquilo, começou a sentir um enorme tédio. E, com ele, veio um sono invencível.

Tudo rolava legal até por volta da meia noite. Nesse momento ela começava a bocejar, seus olhos se enchiam de lágrimas, ficava impossível fingir que prestava atenção no que o otário a seu lado estava dizendo. Às 2h30 ela apagava, deitava-se onde estivesse e roncava de acordar o quarteirão. Alguns caras, num tesão de dar gosto, enfrentavam a barreira sonora e se introduziam entre os lábios da bela adormecida – mas, convenhamos, um oral involuntário, sem um hábil manejo de língua, não é tão gostoso assim. E muitos ficavam indignados, atingidos em sua masculinidade, afinal pagavam para ter uma companhia se não solícita e qualificada, com PhD em sexo, no mínimo acordada! As queixas se avolumaram e a empresa de acompanhantes terminou por dispensar os seus serviços.

Sem alternativa, Luzia trancou a matrícula da faculdade. Mas continuou a estudar em casa, já havia comprado livros e apostilas, pretendia retomar os estudos na primeira oportunidade – e realmente não tinha nada de muito melhor a fazer.

Certo dia, ao ler textos sobre posicionamento de marca, ela se deteve na história da Coca-Cola.

“Que guinada incrível!”, pensou. “A Coca-Cola surgiu como um xarope para indigestão e era vendida em farmácias. Teve coragem pra mudar e tornou-se o refrigerante mais vendido no mundo!”

De repente, uma ideia lhe ocorreu.

“E se eu fizesse o mesmo? É claro que não posso ser uma dama da noite, não consigo ficar acordada, mas às 6 horas da manhã estou a mil. Nada me impede de me reposicionar no mercado do sexo e ser … – seus olhos brilharam de excitação – uma estrela d’alva? Uma diabinha matinal? Uma vampirinha matutina? É isso! Posso até usar o nome de Cristina, a vampira matutina!

Em seguida, ela tratou de adaptar sua imagem à personagem recém-criada. Dentinhos de vampiro, uma gota de tinta vermelha junto à boca, para parecer sangue, uma levíssima maquiagem gótica e um sorriso zombeteiro e desafiador. Para coroar a produção, um biquíni branco que era um atentado ao pudor, a contrastar com sua pele sedosa de morena. Em seguida, ligou para um ficante fotógrafo que voou para a casa da moça com toda a sua parafernália, felicíssimo com a perspectiva de ser pago em espécie.

Enquanto esperava o fotógrafo-ficante, Luzia escreveu no computador o texto que acompanharia a sua foto:

SEU TESÃO MATINAL VALE OURO!

Venha amar sob a luz do Sol nos braços de Cristina, a vampira matutina! Seu corpo quente vai levar você à loucura!! Se não ficar satisfeito, seu dinheiro será devolvido em dobro!!!

Dois dias depois, a foto da vampirinha de biquíni e o texto instigante apareceram nas redes sociais, com os telefones e outros recursos para contato. Os clientes começaram a chegar, e o dinheiro também. Ela atendia basicamente dois tipos de homem: os matinais, que nem ela, que lhe proporcionavam transas memoráveis, e os fim-de-noite. Estes a procuravam caindo de bêbados e muitas vezes nem chegavam a transar, apagavam antes ou durante; todos eles pagavam sem reclamar, pois nem lembravam o que haviam feito, e se haviam gostado ou não.

Entre os que, por algum motivo, não atingiam o orgasmo, ela era impiedosa com os brutos e com aqueles ostensivamente casados. Dizia-lhes sempre:

– Claro que devolvo seu dinheiro, amor. Só preciso fotografar seu RG e que você assine um recibo reconhecendo que recebeu a grana – e todos eles desistiam.

Já para os homens gentis ou que haviam lhe dado algum prazer, ela devolvia o dinheiro, dava-lhes um beijo tórrido de despedida e pedia que contassem o que acontecera a seus amigos. Muitos destes a procuravam depois e mencionavam o ocorrido: a propaganda boca a boca funcionava.

E assim Luzia, ou Cristina, a vampira matutina, seguiu em frente. Comprou um carro do ano, um bom apartamento, fez viagens internacionais. Só não viveu um grande amor e nem voltou à faculdade. De um lado, não eram muitos os amantes matutinos que valessem a pena, e muitos dos mais interessantes já eram clientes seus; de outro, não tinha muito mais a aprender, seu insight sobre posicionamento de marca já lhe rendera mais grana que o MBA de um farialimer.

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