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Achei horrível, mas fiquei na minha…

Gato novo no pedaço! Lígia, minha neta, ia para a faculdade quando ouviu miados fraquinhos vindos da rua, junto à calçada. Era um filhote todo negro, um machinho detonadaço, magro de dar dó, o pelo castigado pela falta de abrigo, pela exposição à chuva, coisas assim. Pegou-o, claro, e o trouxe para casa.

– Vô, podemos ficar com ele? – perguntou com um olhar pidão.

Meu coração é à prova de muita coisa, mas não de gatinho recém-desmamado, mesmo que seja feio pra dedéu. Concordei, minha neta foi para a faculdade, e a coisinha ainda sem nome foi conhecer seus novos domínios. E a gataiada.

À noite, quando ela voltou, teve início a cerimônia de batismo da ferinha.

– Vai se chamar Miguel da Silva! – decretou.

Achei horrível mas fiquei na minha, conhecia meu gado. Confirmando minha experiência, Lígia logo mudou de opinião.

– Pensando bem, o nome vai ser Bruce, Bruce Wayne dos Santos!

Bruce Wayne. Até que não era mau. Quando ela foi para o quarto, preparei-me para a cerimônia do batismo verdadeiro, a cargo de Pantera, Lua, Flechinha, Sid e Prince.

Lembrei a minhas ferinhas que o recém-chegado era um filhote, devia ser tratado com carinho E que seu nome de gente seria Bruce Wayne. Quanto ao nome de gato, ia depender da sabedoria deles.

– Escravo (é assim que me chamam, de escravo ou escravão), Bruce Wayne é maneiro. Mas não é nome de gato, é nome de morcego!

É isso que dá, assistir a filmes do Batman com os gatos na sala. Respondi respeitosamente:

– Concordo, cabe a vocês, meus donos (é assim que os chamo) mudá-lo.

Mais uma vez os felinos domésticos se entreolharam, miaram, cheiraram-se, pareciam discutir entre si. Dessa vez, quem falou foi Pantera:

– Escravo, ele é todo preto que nem eu, sugeri o nome Pantero, mas não foi aprovado. O nome gatal dele vai ser Ponciano!

Observei bem o batizando. De fato, o mover de sua cauda, seu andar, seus miados, já um pouco mais fortes, tudo isso traduzia uma identidade poncianesca.

Minha vez de falar.

– Acho um nome excelente, mas nada comum. Posso saber como vocês o conheceram?

– Vimos o escravão batucando naquela coisa (o teclado de computador), rindo sozinho que nem bobo e murmurando às vezes Ponciano. Foi isso. E ele é um ponciano, da ponta dos bigodes ao último pelo do rabo!

Lembrei do episódio. Havia gatos a meu redor (sempre há) enquanto eu escrevia o conto Moi e o coronel, já postado aqui e em meus grupos literários e divulgado por Notibras em 29 de outubro de 2025. Nele, narrava meu encontro onírico com o coronel Ponciano de Azeredo Furtado, protagonista do romance O coronel e o lobisomem, do grande José Çândido de Carvalho. Não vou mencionar aqui o porquê dessa aventura, os curiosos que busquem o conto, prometo que vale a pena.

Quanto a murmurar ocasionalmente o nome de um personagem, admito que o faço, creio que todo escritor age assim. Agora, rir sozinho, que nem bobo, é pura maldade felina. No máximo um sorriso ou, vá lá, um risinho discreto de prazer, ao reler uma passagem divertida e bem resolvida.

E assim meu novo dono ganhou seus nomes. Minha neta o chama de Bruce, ou Bruce Wayne; eu o chamo de Ponciano, ou Ponci, mas só quando não há outros humanos por perto. Mas o que o faz babar de prazer é quando o cumprimento parafraseando as palavras que Zé Cândido colocou na boca do coronel Ponciano para dar bom dia a seu adorado galo de briga, o capitão Vermelhinho Pé de Pìlão:

– Bom dia, seu Ponci (ou seu Ponciano). Como vai sua pessoinha?

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Leia o conto Moi e o coronel: 

*https://www.notibras.com/site/por-conta-de-elogio-que-recebeu-do-eduardo-martinez-cadu-matos-quase-borra-as-calcas/

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