Notibras

Adivinhem o que inspirou este conto…

O nome oficial era “lago das montanhas e da chuva”, mas todos o conheciam como “lago dos tormentos”. Ou das tormentas, tanto fazia.

Os ribeirinhos tinham vidas curtas mas intensas. Tão logo os rapazes e moças chegavam à puberdade, ficavam juntos e procriavam. Era preciso
garantir a continuidade da vida, a geração seguinte, uma vez que não havia para onde fugir e, devido às calamidades naturais, pouquíssimos
do bando chegavam à velhice.

A chuva era o primeiro obstáculo. Em geral caía no meio do lago, mas por vezes atingia suas margens, arrastando para o fundo homens,
mulheres e crianças.

As montanhas eram mais perigosas. Caíam do céu, esmagando as pessoas, e por vezes blocos de material cobriam as margens. Por sorte, a queda não era imprevisível, como a chuva. Primeiro o céu desaparecia, coberto por uma espécie de massa de cores variadas; quando assistiam a isso, todos tratavam de escalar as margens escorregadias, afastando-se o mais possível do lago. Depois vinham a queda e as ondas lançadas contra as margens pelo impacto, que sempre ceifavam vidas.

Por outro lado, a queda dos montes era essencial à sobrevivência do bando. Logo que as águas serenavam, a população dedicava-se à separação, no material pastoso, de tudo que fosse comestível. Ocasionalmente, em um presente dos deuses, vinham cereais sob a forma de grãos, que não necessitavam de tratamento nos laboratórios para ser consumidos e alimentavam famílias inteiras.

Outra dádiva do céu, se é que se pode usar o termo para um fenômeno tão destruidor, eram as tempestades pastosas, as golfadas de uma mescla de sólidos e líquidos. Eram bem mais raras que a queda das montanhas e da chuva e, com sua violência, custavam vidas, mas quase sempre traziam alimentos praticamente intactos, assegurando por muito tempo a sobrevivência.

Ocorria ainda, a intervalos regulares, a queda de um material sólido mas relativamente leve, de cores variadas. Era uma das poucas matérias-primas à disposição do bando, sendo imediatamente recolhido e usado nas casas e demais construções do grupo. E também nos barcos que permitiam atravessar o lago.

E havia um derradeiro perigo, tão mortal que não ousavam mencioná-lo, nem constava da designação oficial do lugar: o redemoinho. Cedo ou tarde, após a queda das montanhas, a chuva e as tempestades pastosas, uma força misteriosa arrastava para o fundo do lago os materiais que flutuavam na superfície. Os técnicos separadores de nutrientes arriscavam diariamente a vida, sabendo que teriam pouco tempo – no máximo, dois dias – para realizar seu trabalho e em seguida buscar a segurança nas margens. Um rosnado vindo do fundo do lago era o único aviso; essencialmente, porém, o fenômeno era imprevisível, ocorria de um momento para o outro, e sempre havia alguns heróis que pereciam, envoltos pelo turbilhão.

Era assim, e nada se podia fazer a respeito.

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