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Afastado e já quase ex-, Ibaneis agiu como um governador cego

Ibaneis Rocha

Não sei se me dirijo ao Senhor como governador ou já antecipo a condição de ex-governador. Sei que a situação atual não pode ser chamada de injusta.

Sou frequentador de redes sociais, como creio que são milhões de moradores do Distrito Federal e Entorno. Duvido que tenha escapado a mais que um ou uma em cada quatro de nós que vinha sendo articulada nacionalmente uma invasão de nossa capital com propósitos claramente golpistas.

Vi ao menos uma dezena de vezes do início do ano pra cá convocações para a participação em caravanas que viriam ao Distrito Federal para, no último fim de semana, se juntarem aos “moradores” (com mais de 60 dias já dá para chamar assim, né?) do acampamento junto ao QG do Exército e dali marcharem para o local a ser invadido.

As expressões e advertências não deixavam dúvidas quanto às intenções:

“Agora, é tudo ou nada.”

“Venha preparado para levar bomba de gás ou borrachada nas costas.”

“Nao recomendamos que venham idosos, mulheres e crianças.”

“É importante que venham os CACs e tragam as suas armas.”

“Não temos data para voltarmos.”

E assim por diante.

Na sua convocação, uma das líderes do movimento golpista deixou claro: “Nós vamos sitiar Brasília, nós vamos tomar o poder de assalto, o poder que nos pertence.”

O Senhor não viu nenhuma dessas postagens? Nem tampouco qualquer dos seus auxiliares? Nem mesmo aqueles que têm esta entre as suas principais atribuições?

Eu achei muito estranho quando li as garantias de intenções pacíficas dadas pelo Senhor ao ministro da Justiça. Mais do que isso, fiquei abismado ao ver a placidez, a simpatia, a atitude de colaboração da PMDF, que se presume a mais bem armada e adestrada do Brasil, de repente, assumindo-se como guias turísticos, conduzir o cortejo de golpistas até a Praça dos Três Poderes.

Senhor governador, sou militante político há algumas décadas. Tempo de ditadura e tempo de democracia. Não admito violência policial, ainda mais se seletiva. Mas nunca esperei fazer “selfie” com policial militar. Nem nunca vi tamanha integração da PM com manifestantes ou soube que houvesse em qualquer lugar.

Não sei o que havia em sua cabeça naquele domingo ou o que pensavam as suas autoridades, digamos assim, de “segurança”. Ou talvez eu prefira que não fosse o que imaginei.

Mas quero deixar muito claro o que pode parecer uma banalidade. Não há outro motivo para esse quadrado existir que não seja abrigar as sedes dos três Poderes.

Quer que traduza? Dar à cúpula de cada um deles (Executivo, Legislativo e Judiciário) as condições para que aqui funcionem. E isso começa por oferecer segurança. Não falta em outros estados quem não veja com bons olhos os custos para manter o Distrito Federal.

Ainda não esquecemos o inferno do dia 12 de dezembro, com 5 ônibus e dez carros incendiados no centro de Brasília. Com a PF sendo depredada e uma delegacia de polícia invadida. E a nossa polícia inerte. Quem sabe nasceu ali a ideia de ousar mais? Se foi tão fácil, por que não invadir o Supremo, o Congresso, o Palácio do Planalto?

Pois, Senhor Ibaneis, já há quem fale na extinção do Fundo do Distrito Federal. E até quem questione a nossa autonomia, pela qual tanto lutamos. Aliás, não lembro de ver o Senhor naquelas lutas.

Só falta surgirem alguns ainda mais loucos e trazendo a ideia de levar a capital de volta para o Rio de Janeiro.

Saiba que, com a nossa luta, não permitiremos que prospere qualquer dessas maluquices. Mas tenha claro que só volta a se falar nessas coisas por causa da sua atitude inconsequente no fatídico dia 8 de janeiro.

Se não tem competência para dirigir o Distrito Federal, é preferível que continue afastado.

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