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Agiota, pescador e coronel

Há quem se lembre do saudoso José Feliciano Raposo, o Raposão, cujas histórias ainda reverberam por Brasília, cidade que adotou após sair de Carolina, no Maranhão, para progredir na vida. Se progrediu ou não, é uma questão controversa, mesmo porque o sujeito, apesar de gente boa, não era lá flor que se cheire.

Nos idos de 1968, montou um escritório de contabilidade no Setor Comercial Sul. Apesar do lucro razoável, nem de longe era a sua maior fonte de renda. É que Raposão era agiota, e o local era perfeito para encobrir tal atividade, digamos, ilícita.

Já perto de completar 70 anos, Raposão parecia não querer que a adolescência se desgarrasse do seu dia a dia. Tanto é que, apesar de quase sempre estar de terno, talvez para aparentar certa seriedade, nunca abandonou por completo o boné. Em vez de sapatos, chamativo par de tênis. E era assim que recebia clientela, amigos e autoridades, praticamente todos cientes dos seus negócios.

Outra faceta do Raposão era o seu trânsito livre no Quilombo dos Calungas, às margens do rio Paranã. Ele era apaixonado por pescarias e, não raro arrastava os mais chegados para passarem alguns dias no local, longe do estresse da cidade. Invariavelmente, Raposão gostava de tomar três ou quatro doses de aguardente e, somente depois de devidamente calibrado, criava coragem para ir pescar.

Certa feita, nos idos de 1982 ou 1983, lá foi o Raposão acompanhado do Antonho e do Ricardão, que passariam facilmente por seus filhos, haja vista a disparidade de idades. No entanto, apesar de serem de gerações distantes, havia aquela conexão típica de amizade verdadeira. Os rapazes até sabiam que a pescaria só começava após as várias rodadas de cachaça, como se São Pedro, padroeiro dos pescadores, guiasse os embriagados para o local onde os peixes se aglomeravam.

Após quase uma semana de pescaria e bebedeira, eis que o trio pegou a estrada de volta para Brasília. Iam num Jeep cheio de irregularidades, além da carga absurda de peixes, muito acima da permitida por lei. E não deu outra, foram parados em uma blitz. Antonho ao volante, Ricardão ao lado, enquanto Raposão transpirava puro álcool no banco de trás. Mas antes embriagado do que iludido, costumava dizer.

Assim que o policial pediu a documentação para Antonho, que tremia mais do que vara verde, eis que a voz rascante do Raposão cortou o ar.

— Sou o coronel Raposo. Algum problema, policial?

O homem da lei, pego de surpresa, nem se lembrou de pedir a documentação do veículo e do graduado. Tratou de bater continência e abriu caminho para o Jeep passar.

Já na estrada novamente, eis que o Ricardão e o Antonho, surpresos por descobrirem que estavam na companhia de um oficial do exército, perguntaram por que Raposão nunca havia lhes informado sobre tal patente.

— Vocês são dois bocós mesmo! Não tenho nem certificado de reservista. Nunca pisei num quartel.

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Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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