Primeiro dia de aula em uma escola de Educação de Jovens e Adultos localizada em uma metrópole brasileira:
—Antes de mais nada, quero dar os parabéns a todos nessa sala! Vocês são a consagração do famoso e meritório ditado de que nunca é tarde para alguém aprender, basta vontade e esforço, além de apoio e oportunidade, coisas essas que são uma obrigação do Estado e das autoridades que o representam.
—Obrigado, professor! responderam em uníssono quase todos os alunos.
— Hoje quero conhecer vocês, saber sobre as motivações e os objetivos que trazem vocês aqui. Então, vou chamar cada um por ordem alfabética e pedir que se apresentem e compartilhem isso com todos. Amália, começamos por você.
Amália apresentou-se e, emocionada, revelou que era auxiliar de limpeza e estava retomando os estudos pelo prazer de aprender e, quem sabe, conseguir uma atividade com um salário melhor.
Assim foi, até o professor chamar o 22º aluno da lista.
— Matheus, sua vez, por favor!
Um tanto contrariado, Matheus levantou-se e falou:
— Professor, sou auxiliar de pedreiro, tenho 40 anos e estou aqui por que eu tenho um sonho.
-Que ótimo, sonhar é preciso! Você pode compartilhar o seu sonho com a classe?
— Eu quero ser autônomo, empreendedor! Quero ter o meu próprio negócio, CLT é para os fracos!
— Muito bem! E você se sente apoiado pelos atuais programas governamentais para realizar o seu sonho?
— Na verdade, eu não concordo nada com essas coisas de esquerda, quero vencer por mim mesmo. Por exemplo, moro em uma casa do programa Minha Casa, Minha Vida, mas um dia quero comprar uma que não tenha esse carimbo.
— E quanto a sua saúde? Já teve assistência de algum programa?
— Já usei a UPA para curar uma dor de barriga, peguei remédio na Farmácia Popular e arrumei os dentes pelo Brasil Sorridente, mas acho meio constrangedor.
— Sei, e a sua família? Tem mais alguém que já foi apoiado?
— Pois então, a minha mulher recebeu o Bolsa Família por dois anos, mas agora já arrumou emprego.
— Entendo, e vocês têm filhos? Eles já foram beneficiados por algum programa?
— Tenho um filho e uma filha! O moleque está inscrito no Pé de Meia e, como tem 100% de frequência, traz um dinheirinho para casa todo mês.
— E a sua filha?
— Entrou na faculdade de Direito graças à cota racial e ao Prouni, mas acho um absurdo essa coisa de cotas raciais, não é justo, afinal, o dia tem 24 horas para todos!
— Então você não acha legítimo que pobres, discriminados e necessitados tenham apoio do Estado para perseguirem seus sonhos e conquistarem uma vida melhor?
— Assim não dá para ser independente, quero pagar tudo do meu bolso, como fazem os ricos e os grandes empresários, eles é que tocam esse país pra frente! Por isso nunca votei e nem vou votar no nine!
— Entendi! Bem, Matheus, vamos discutir tudo isso nas aulas de História. No fim do ano, você é livre para continuar pensando assim ou mudar as suas convicções.
Nesse momento, uma aluna que já havia se apresentado pediu novamente a palavra:
— Professor, isso vai ser um trabalho de Hércules! Em regra, pobre de direita nasce com complexo de Stephen e a tendência é que leve essa doença cognitiva para o túmulo, confunde direitos com esmola, Estado com inimigo, além de amar o próprio algoz. Mudar essa mentalidade é um processo para muitas gerações!
Boquiabertos, professor e alunos fizeram um silêncio obsequioso, até que o professor perguntou:
— Impressionante! Como é mesmo o seu nome, moça?
— Meu nome é Ana Paula!
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* Stephen é o personagem vivido pelo ator Samuel L. Jackson no filme Django Livre, do diretor Quentin Tarantino.
