Há pessoas que passam por nossa vida e logo são descartadas. Não por serem insignificantes ou desmerecedoras de lembranças. Diria que simplesmente não nos marcaram de modo profundo como outras. E digo mais, existem indivíduos que, apesar da quase completa falta de afinidades intelectuais, ainda assim nos são caras.
Fabiano. Ah, o Fabiano! Um tipo que me provoca repulsa, mas que ao mesmo tempo meu peito não consegue descartar. Suas palavras muitas vezes me causaram espanto e, passados tantos anos, me pego boquiaberto por tantas asneiras proferidas por uma só boca. Mas é amigo, e bobagens de amigos costumamos relevar, que nem mãe tentando a todo custo esconder os defeitos da cria.
É engraçado como algumas coisas nos incomodam, inclusive quando concordamos com elas. Por exemplo, apesar da distância que tomo o cuidado de manter do Fabiano, já aconteceu de eu estar em algum lugar e ser apresentado a outra pessoa. Até aí, nada de novo. Mas eis que, conversa vai, conversa vem, alguém menciona que esse indivíduo possui um amigo em comum. E quem você supõe que seja? Pois é, ele mesmo, o Fabiano.
Repare que não sou amigo dessa pessoa que acabei de conhecer. Um quase estranho, eu diria sem me mostrar pedante. É que, depois de certa idade, a cautela nos faz pouco mais reservados. Ressabiado? Que seja, então! No final das contas, dá tudo na mesma.
Pois lá estávamos nós três conversando trivialidades. Para não deixar qualquer dúvida, os três éramos o sujeito que me foi apresentado, a colega que nos apresentou e, obviamente, eu, que ainda não me tornei um holograma. Mas confesso que, naquele caso, bem que essa era a minha vontade.
Entre um gole de cerveja e outro, eis que o sujeito que eu acabara de conhecer começa a falar mal do Fabiano. Minha cara não deve ter ficado muito aprazível, pois lá estava eu tentando controlar os meus nervos faciais para não demonstrar o incômodo com aquelas agressões verbais contra o meu amigo. Repito, não que eu discordasse. Todavia, amigo que é amigo protege que nem mãe.
— Sabe, acho que você está exagerando. O Fabiano, às vezes, age como criança. Mas é o jeito dele.
— Que nada, Jorge! Já vi muito pão francês com mais miolo do que o Fabiano.
Se concordo? É claro que sim! Mas precisava dizer aquilo?
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Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).
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