Luiz, jornalista, e Jonas, economista, eram da mesma cidade, Niterói, amigos na juventude. Ambos vieram para São Paulo em anos diferentes. Quatro décadas depois, já aposentados, reencontraram-se via Facebook e decidiram colocar o papo em dia.
– Pego você em casa, Luiz. Me passa o seu endereço.
Luiz, que não dirigia mais, nem tinha carro, obedeceu.
Na hora marcada, ele estava na entrada de seu edifício quando viu um Mercedes reluzente parar. A porta abriu-se e viu o velho amigo correr em sua direção e abraçá-lo, exclamando, “Porra, meu, há quanto tempo!” Entraram no carro e foram para o apartamento de Jonas.
Não era muito grande, dois quartos, porém mais que suficiente para alguém que morava sozinho. Decorado com uma sóbria elegância masculina, oferecia um ambiente acolhedor. Jonas mostrou o apartamento, com destaque para sua biblioteca, e foi para a cozinha. Voltou uns 10 minutos depois, com uma tábua de queijos, um Bordeaux e duas taças. Sentou-se e os dois começaram a beber e a conversar.
Havia muito chão a cobrir. Na última vez em que se viram, Luiz e Joana, sua esposa, estavam num barzinho com Jonas quando uma amiga de Joana se aproximou. Seu nome era Estela, ex-colega na Filosofia da USP, ambas professoras em faculdades diferentes. Os quatro começaram a conversar – e ficou evidente a atração entre a amiga e o amigo.
– Ficamos juntos desde aquele dia – disse Jonas. – Graças a vocês, ou por culpa de vocês, como queira – continuou, com um sorriso. Logo depois, porém, seu rosto assumiu uma expressão triste. – Há uns 10 anos, Estela teve um câncer fulminante e faleceu.
Luiz disse as frases de condolências de praxe e conduziu a conversa para a juventude dos dois.
Falaram de tudo, do início de sua amizade, dos colegas de faculdade – Luiz havia cursado dois anos de Economia, antes de enveredar pelo jornalismo – e, em especial, de antigos amores. Recordaram mulheres que haviam pontilhado o caminho dos dois – por sorte, nenhuma em comum, isso criaria um clima esquisito, meio coiso, como se dizia em Niterói. E por aí foram, esvaziando o Bordeaux lastreado pelos queijos.
– Agora vamos jantar – ordenou Jonas. E foi à cozinha buscar um magnífico prato de camarão à baiana, que repousava num réchaud. Estava delicioso, e foi acompanhado por um excelente vinho branco. Luiz, que havia parado de beber há mais de 20 anos, ficou meio bêbado. Mas uma bebedeira dionisíaca, em que a perda da racionalidade foi amplamente compensada por uma sensação de bem-estar e quase onipotência.
No final, deixando os pratos na mesa, sentaram-se em duas poltronas próximas. Jonas serviu um conhaque francês e acendeu dois charutos.
– São cubanos. Nunca fumei, mas abro uma exceção para um bom charuto cubano – comentou Jonas.
Luiz, que fumava como uma chaminé, concordou em silêncio, saboreando o conhaque e o aroma do charuto.
Depois continuaram a conversa, mais tranquilos, falando do atual momento dos dois, sem a preocupação de atualizar o amigo sobre 40 anos de suas vidas. Finalmente, Luiz declarou.
– Olha, cara, adorei o Bordeaux, os queijinhos, o jantar, o vinho branco, o conhaque e o charuto. E, sobretudo, gostei muito de conversar com você, precisamos repetir um dia desses. Mas já é tarde, preciso ir pra casa. Vou chamar um Uber.
– Levo você, amigo.
Luiz recusou, falou que não precisava, mas Jonas insistiu. Pegaram o carro e cruzaram São Paulo. Trânsito tranquilo, à meia-noite.
Durante o trajeto, Luiz ficou em silêncio, enquanto pensava, “Porra, meu, fui tratado como um rei. Tenho de retribuir, noblesse oblige, mas como? De repente teve uma ideia. Não era a sua praia, mas fazer o quê? Noblesse oblige.
Quando o Mercedes parou diante do prédio, Luiz aproximou-se do motorista, murmurou “Obrigado por uma noite inesquecível”, bateu as pestanas sedutoramente e deu-lhe um beijo na boca.
