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André despertou de madrugada com o som do celular

André acordou de madrugada com o barulho do celular. Tonto de sono, pegou o aparelho. A família estava fora, podia ser algo urgente.

Era o vídeo de um avião pousando. E uma mensagem de áudio:

– Oi, estou em Guarulhos.

A imagem não interessava. A voz sim. Era de Graziela, uma gaúcha com quem ele fazia amorzinho virtual desde o confinamento da pandemia. Nos últimos tempos, porém, as transas online haviam diminuído muito em número. De um lado, pela idade, ambos estavam com bem mais de 70 anos. De outro, porque os dois estavam envolvidos de corpo e alma, em lugares diferentes, na derrota eleitoral do Bozo, faltava tempo para coisinhas gostosas.

– Você está em São Paulo? – teclou, e se arrependeu de imediato. Claro que ela estava em São Paulo, estava em Guarulhos, poxa!

O que ele queria perguntar era:

– Veio me ver? Quer que arranje um hotel pra você? Quer que arranje um hotel pra nós dois?

Essa perspectiva o enchia de alegria, mas, ao mesmo tempo, lhe dava calafrios. Por um pequeno detalhe: André era casado havia mais de 20 anos, estava no terceiro casamento, tinha dois filhos e cinco netos. A chegada de uma nova mulher iria detonar sua relação, por mais que Leda, sua parceira, fizesse vista grossa para suas traiçõezinhas a distância. Mas sexo virtual é uma coisa, outra, bem diversa, é se enroscar com alguém na cama. “Duvido que Leda seja compreensiva a esse ponto”, pensou.

Imaginou, em seguida, o que fazer. Recordou um ditado que usava nas mais diferentes situações (não, não tão diferentes assim; em todas elas o mocinho morria no fim): “Passarinho que come pedra sabe o fiofó que tem”. Era o que acontecia com ele, gostava do sabor do cascalho e mesmo de algumas pedrinhas menos digestíveis, e agora chegara o momento de se romper todo. Porque, se a senhora gaúcha tivesse vindo para ficar com ele, não correria do pau; muito ao contrário, o utilizaria o mais competentemente possível. Seu casamento estava subindo no telhadomas, pelo menos, não se esborracharia no chão naquela noite, graças aos deuses Leda estava fora, comparecera ao aniversário de um dos netos.

Nisso chegou uma nova postagem:

“Estou indo pra Vitória”.

Boa e má notícia. Boa, porque seu rabinho não ia virar uma posta de sangue ao descomer as pedras, seu relacionamento não ia cair do telhado. Má, porque chifre, mesmo virtual, dói pra dedéu, e ele lembrou que, durante o lockdown da pandemia, a senhora dos pampas repartia seus carinhos entre três lockdengos: ele, um argentino bobo, que a chamava de “reina”, e um carinha, pertencente ao passado dela, que morava em Vitória. Claro que a traidora tinha vindo se aninhar nos braços do fiodeumaégua.

Deu um sorriso um pouco triste. Jamais conseguira fazer charme para si mesmo, não estava com ciúme. No máximo, um tanto desapontado, pelo término formal de algo que já havia acabado na prática fazia tempo. E admirou a coragem da atleta, que havia trocado o conforto de um amorzinho virtual pela necessidade de chegar junto, ver qual era a do capixaba. Mesmo que desse tudo errado.

“Ela é uma passarinha, come pedra, sabe o que vai acontecer, paga o preço de seus desejos”, disse para si mesmo.

Com essa ideia reencontrou a calma e começou a brincar com a passarinha nas postagens:

– Quer dizer que perdemos, moi e o moço da reina? O vitorioso foi o cara de Vitória?

– É um velho amigo, vim para andar de mãos dadas – e tacou o emoji de alguém chorando de tanto rir.

Era demais. Bola pingando na área, nunca resistira à tentação de meter o pé, mesmo que isso lhe custasse mulheres, amigos, o escambau.

– Sei. A gente andava de mãos dadas virtuais, entre uma transa online e outra – e mandou emoji de um diabinho de sorriso bem sacana.

– KKKK – com um emoji de um carinha de sorriso pra lá de obsceno.

A essa altura ele a estava amando. Muito. Só queria que a passarinha fosse feliz, que bicasse as suas pedras e depois, na hora de desdigeri-las, desse provas de resiliência anal. De qualquer modo, o furico da passarinha era problema dela e, quando muito, do veínho capixaba.

– Divirta-se – postou.

Ela respondeu sem palavras, com o emoji de mãos postas em oração.

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