Aniversário do tio Aristarco, que chegava aos improváveis 98 anos, a família se reuniu. Ninguém se atreveu a faltar, pois o velho era abastado e, por desventuras amorosas ao longo da vida, não foi possível conceber herdeiros. Dessa forma, cada um a seu modo, dava um jeito de adular o milionário.
Cada qual utilizava técnicas para tentar se aproximar do aniversariante, seja para elogiar por conta da roupa, seja por causa do novo corte dos parcos cabelos, que era o mesmo desde sempre, seja até mesmo em razão da incrível memória, apesar dos óbvios sinais de senilidade do sujeito.
— Tio Aristarco, queria eu chegar à sua idade com essa capacidade de não se esquecer de nada.
— Obrigado, Fernanda.
— Tio, eu sou a Isadora.
— Ah, Isabela, me desculpe.
— Isadora, tio!
— O quê?
— I-SA-DO-RA!
— Isadora?
— Isso, tio! Isadora!
— Ah, eu tenho uma sobrinha chamada Isadora, mas acho que ela não veio.
— Tio, a Isadora sou eu!
A festa prosseguiu com confusões do tipo, até que Júlio, um dos mais bajuladores e que gostava de enaltecer as qualidades de músico do tio, apesar do velho nunca as ter possuído, pegou um violão no canto da sala.
— Tio, toca aquela música que o senhor sempre tocava pra mim quando criança.
— E eu sei tocar?
— Ih, como sabe! O senhor só não é profissional porque não quer.
De tanto Júlio insistir, tio Aristarco pegou o violão. Dedilhou as cordas, que pareciam desafinadas. Foi o bastante para arrancar aplausos entusiasmados da plateia menos honesta que poderia ser encontrada no quarteirão.
— Tio, o senhor é o melhor!
— Maravilha, tio Aristarco!
— Quem já foi rei jamais perde a majestade.
— É como aprender a andar de bicicleta. Nunca se esquece.
Enquanto os adultos teciam os mais absurdos elogios ao ricaço, eis que Maria Flor, de oito anos, pegou o violão que havia sido deixado sobre o sofá. Ela o ajeitou no colo, quando Augusto, um dos tios, a questionou:
— Você toca violão?
— Toco.
— Não sabia.
— Pois toco, tio.
— E desde quando?
— Hum… Deixa eu pensar… Hum… Ah, desde ontem!
Silêncio sepulcral, até que tio Aristarco sorriu. Todos sorriram. O velho gargalhou, todos gargalharam. Só quem não pareceu gostar foi a menina.
— Gente, eu só quero paz!
Como podia uma coisa daquelas? Cadê os pais daquela garota para lhe aplicar um corretivo? Novo silêncio. Todos dividiam os olhares furiosos sobre a garota e de expectativa sobre o tio Aristarco.
A mudez era tamanha, que era possível ouvir o som da revolta, caso ela o possuísse. E quando o clímax começou a instigar alguém a se pronunciar, eis que tio Aristarco aplaudiu a pequena Maria Flor. Levou um átimo até que todos fizeram o mesmo.
A criança se aproximou do parente, lhe deu um beijo na face descarnada e soprou no seu ouvido:
— Feliz aniversário, tio Aristarco.
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Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).
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