– Carmela não é mais donzela. Vai fundo.
A frase não teve resposta, nem causou espanto. Donzelas maiores de 18 anos, em Niterói, no ano de graça de 1971, eram mais raras que dentes
numa galinha. E num acampamento de carnaval em Praia Seca, trecho paradisíaco da lagoa de Araruama, então… Todo mundo pra lá de
Marrakesh, louco de (muita) bebida e (alguma) maconha, se aparecesse alguma virgem desavisada por ali, já viu, ia deixar de sê-lo (trocadilho com selo, evidente) rapidinho. Vapt vupt.
Hora de apresentar os personagens. Quem foi informado da não donzelice de Carmela foi Rudi, nascido em Niterói com o nome de Rodolfo e jornalista em São Paulo; quem proferiu a obviedade foi seu amigo (melhor dizendo, ex-amigo) Manuel, sutil como um elefante em loja de louça. E Carmela… Ah, Carmela era uma linda espanholinha de uns 20 anos, de lábios grandes, sorriso permanente e braços roliços, deliciosos de pegar; a afirmativa sugeria que ela gostava do negocinho, se Rudi chegasse junto ia se dar bem.
Só que Carmela e Rudi não estavam com a mínima vontade de transar. Não um com o outro. Ela acabara de terminar um relacionamento; ele continuava apaixonado por Lola, com quem havia vivido uma relação tórrida e tempestuosa e que, pouco depois do término, casara de papel passado com Manuel, o sutil. Lola estava no acampamento com o marido, Rudi ficava latejando de desejo por ela à sombra das casuarinas que rodeavam a areia branca – e desejo latejante é um escândalo, fica visível dentro da sunga, atrai moças solteiras e senhoras casadas…Conclusão de Manuel, cujo casamento, diga-se, não ia nada bem das pernas: era urgente acasalar Rudi, cruzá-lo com alguma moça, para que sua latejância não despertasse desejos lúbricos em Lola e ferrasse de vez o matrimônio deles. Sem saber de nada disso, Carmela, a não donzela, foi a vítima escolhida.
O caminho para isso foi o de sempre ao molho: muito álcool, alguns baseados e hormônios funcionando a todo vapor. Ou seja, não foi necessário segurá-lo à força para fazê-lo transar com a salerosa. Carmela e ele beberam juntos, fumaram juntos, riram juntos, e de repente começaram a se beijar. Mais tarde, foram para a barraca de Rudi.
E ali o bicho não pegou. Mas quase. Quando estavam nas preliminares, ele sentiu um grilo pousar nas suas costas. Bêbado, maconhado e cheio de culpa por estar traindo Lola publicamente, Rudi ficou com medo do bisso. Ele lembra vagamente de ter procurado a porra do grilo e, claro, de não ter encontrado nada. E, mais vagamente ainda, de ter encarado a moça, no que deve ter sido a transa mais insatisfatória da vida dos dois.
Foi ainda pior no dia seguinte. Ao tentarem sair da barraca, sentiram a entrada bloqueada. Conseguiram esgueirar-se por trás – e levaram um susto. A frente da barraca estava toda coberta de galhos de árvore entrelaçados como guirlandas. Toda a matilha estava diante da tenda, presas à mostra e línguas de fora, esperando para tirar sarro dos dois pombinhos. Ficaram desapontados com a investida pela retaguarda de Rudi – o que não houve dentro da barraca – fizeram as piadinhas de praxe e foram para o mar, ou trepar, ou beber, ou maconhar, o que lhes aprouvesse.
Este conto podia terminar aqui. Mas teve uma suíte. Após o acampamento, Carmela e Rudi encontraram-se em Niterói e foram para a casa dele, em Friburgo. Ele não se lembra de ter sequestrado a moça e a levado no porta-malas, então ela deve ter viajado a seu lado, conversando com ele, rindo e dando-lhe beijinhos. E depois, na casa de campo, transaram duas vezes, se não gostosa, pelo menos satisfatoriamente, o suficiente para ele mostrar que não tinha medo do bisso e de suas aliterações. Rudi lembra do comentário da moçoila:
– Agora, sim.
E não se lembra de mais nada, nem de tê-la levado de volta a Niterói. Mas levou, claro. E nunca mais se viram.
