Pioneiro, inovador e, às vezes, pensador, meu avô Aristarco Pederneira sempre esteve à frente do seu tempo. Morreu com a data de validade vencida, mas não fechou os olhos. Ou seja, apenas trocou de roupa e se jogou na eternidade. Como estabeleceu o mestre Aurélio na obra do mesmo nome, esses tipos são a definição daquelas pessoas cuja visão, ideias ou ações estão muito além dos padrões sociais, técnicos ou culturais da época em que vivem ou viveram. Assim foi e assim será Aristarco, conterrâneo de Francisco Pinto Balsemão, celebrado como pioneiro da democracia portuguesa.
Contemporâneo de Santos Dumont, exemplo de perseverança e altruísmo, também conhecido como o “Pai da Aviação” e oriundo de Trás os Montes, no Nordeste de Portugal, vovô viveu como o único proprietário do seu tempo. No sermão diário aos mais novos, ele deixava claro que sua tese primária era prioritariamente a de consumidor. Ou seja, nada de doador. Galanteador, sátiro e libertino com firma reconhecida, na lousa do quarto escuro em que escondia suas verdadeiras aptidões libidinosas, o velho escrevia sua frase preferida: O verdadeiro valor de um homem não está no que ele faz quando é observado, mas no que faz quando está sozinho.
Aprendi em família que dizer francamente a verdade é a mais digna qualidade do homem de bem. Jamais disconcordei da máxima pensadora. Meu problema é exatamente o vovô. Se contasse tudo que vi e ouvi sobre sua pessoa, rapidamente o transformaria em um desses memes aplicáveis hoje em dia àqueles que se acham melhores do que os outros, tipo os donos do mundo: Homem que não presta é como merda, sempre vai pela descarga.
Velho no físico e nos fios grisalhos da cabeça pensante, meu avô Aristarco Pederneira costumava se apresentar nas noites e nas madrugadas do bairro baseado nos ensinamentos dos gastrônomos Don Juan e Giacomo Casanova, dois dos maiores conquistadores das Américas, da Ásia, da Península Ibérica e do Oriente Médio. Dizem as más línguas que, de tão afoito, o espanhol Don Juan chegou a ser acusado de comer Jonas antes da baleia. E tudo sob o olhar de pedinte insaciável do veneziano Casanova.
Para vovô Aristarco, era (e é) balela a história de que, quando envelhecemos, o corpo, o físico e o apetite sexual mudam. Nas aulas práticas e de laboratório para as moçoilas da terceira idade, ele provava que nesse mundo nada se altera. No máximo, muda de lugar. Vi com esses olhos que a terra há de comer que o velho tinha razão quando, com alguns toques, piscadelas e pinceladas daquilo naquilo, ele demonstrou que, com exceção das clavículas, todo corpo feminino é um órgão sexual. O melhor é que isso também independe da idade física.
Aristarco por parte de pai e Pederneira emprestado pela usurpadora de homens alheios da bucólica Trás os Montes, vovô realmente viveu à frente do seu tempo. Viúvo da vovó Anastácia Pederneira, ele logo se enveredou pelo caminho da esbórnia descompromissada. Agiu assim até que, aos 92 anos, conheceu um brotinho de 22 e logo prometeu casamento. Durante uma das missas de domingo, ele aproveitou a ausência do coroinha e perguntou ao padre Serafim Padovani o que ele achava daquela relação. Amigo de longa data, o sacerdote foi direto ao ponto e indagou se não era demais se casar com essa idade. Ligeiro, vovô respondeu que, como pretendia viver até os 110 anos, precisava de uma companheira.
Diante do otimismo do companheiro, padre Serafim sapecou: – Meu velho Aristarco, avalie a diferença de idade. Ela só tem 22 anos. São 70 anos de distância. Se você não sabe, sexo mata. Ainda mais seguro, meu avô fitou os olhos avermelhados do padre e, sem pestanejar, sentenciou: – Meu caro Serafim, fique tranquilo, porque se ela morrer eu me caso com outra. E casou, casou e casou! Levei dois safanões no pescoço, mas também dei meu pitaco, informando-lhe que uma união desse modelo é o mesmo que um vínculo orelha de vaca: perto do chifre e longe do priquito. Hoje, se fosse definir a figuraça chamada Aristarco Pederneira, lembraria a frase que ele mesmo me disse no dia em que operei a fimose: – Não desista com medo de perder, pois é pior se arrepender de não ter lutado.
…………
Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras
