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As bonecas infláveis e o sucesso da casa de prazeres do velho portuga

Com base nas teses de que alegria não tem idade e de que o prazer muda de lugar, mas jamais acaba, meu avô, mais malandro do que o mais esperto dos manés, decidiu investir em um dos melhores negócios em todos os mercados do mundo. Depois das igrejas evangélicas, é claro. Refiro-me ao bordel, empreendimento no qual a principal mercadoria é sempre o negócio dos outros. Digo das outras. Lembrando que a propaganda é a alma de qualquer tipo de investimento, vovô Aristarco Pederneira de cara aprovou minha sugestão de bordão: O tempo pode roubar a juventude, mas nunca a alegria e o encanto.

Nossas ideias convergentes entendiam que envelhecer certamente não é a coisa mais divertida da vida, mas, com certeza, pode ser engraçada se a encararmos com leveza. Bem-humorado, aos amigos mais próximos Aristarco justificava essa máxima informando que, no seu caso, não havia dúvida entre o Parkinson e o Alzheimer. Segundo ele, era muito melhor entornar metade do copo do que esquecer onde havia guardado a garrafa de vinho português. Nas conversas com o velho, eu dizia com relativa frequência que ele deveria ser o exemplo da clientela.

Veio daí a palavra de ordem da recepcionista, uma jovem senhora de 80 anos: “Em nosso recinto não há velhos. Somos todos adolescentes reciclados”. Por razões óbvias, o evocativo, instigante, alusivo e atualíssimo nome da casa dos prazeres foi o primeiro grande passo para o sucesso do empreendimento. Além de revelador, Fatos e Fakes remetia a um futuro político que vovô não viveria, mas já previa. Aliás, não viveu, mas deve estar se revirando no túmulo diante da concreta hipótese de o capitão de bravata afundar de vez em outubro próximo.

Tudo que não é ele, mas é um dos seus. Apenas um detalhe brincalhão nesta séria narrativa. Na cartilha da casa de saliência de vovô Aristarco, cinco dicas que todo freguês tinha obrigação de ler antes da brincanagem: Use óculos, não apague todas as luzes, programe o celular para o número da emergência médica, tenha Dorflex à mão e certifique-se de que a parceira está na cama. Lidas as recomendações, mãos à obra. Ou vuco vuco, caso prefiram as recomendações do Ministério da Saúde. Como estamos no século 21, melhor talvez seja o nheco nheco na Nhecolândia.

Por ordem da antiga Sunab, na parede esquerda do balcão da recepção foi colocada uma placa indicando o tipo de ambiente que o cliente iria usufruir: “Se você tem mais de 60 anos, escolheu o lugar certo para experimentar as riquezas da idade. Aqui, só relaxa quem tem prata nos cabelos, ouro nos dentes, pedras nos rins, açúcar no sangue, amarras nos pés, ferro nas articulações, cataratas nos olhos, uma fonte inesgotável de gás natural e, principalmente, chumbo no penduricalho, também conhecido por pescocinho de frango”. Embora saibamos que quem gosta de pau velho é o cupim, o cabaré para idosos enriqueceu o velho Aristarco Pederneira.

Tanto que, mesmo depois que as meninas passaram a repudiar a velharia, o velho portuga continuou fazendo a festa. Investiu em bonecas infláveis e a casa lotou de vez. Em um dia de farra etílico-sexual, dois velhinhos adentraram e pediram duas das moças virtuais. Na saída, os óbvios comentários. O menos bêbado achou que tinha faturado uma mulher morta, pois ela não se mexeu e nem gemeu. O bebum da hora jurou que sua quenga era uma bruxa. Na reclamação por escrito, ele disse que, após mordê-la nas partes pudendas, a jovem deu duas cambalhotas, saiu voando pela janela e ainda levou sua dentadura. Vovô passou três dias se explicando na Sunab.

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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras

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