Ela seguia pela calçada num horário de grande movimento, caminhava com rapidez e sem olhar para os lados, no auge de seus 70+, como se diz hoje. Chegava, como de costume, para mais uma sessão de sua terapia semanal. De roupas habitualmente elegantes, tudo que vestia lhe caía bem, e mesmo o simples se tornava estiloso e de bom gosto. Entrou no prédio e se identificou, subiu pelo elevador e entrou no consultório, ambiente familiar e onde se sentia confortável. Ao sentar-se no sofá, teve todo o cuidado para não amassar seu vestido de linho, cruzou as pernas e sua amargura peculiar veio à tona, com seu olhar impiedoso e julgador, já esperando o início da conversa:
— Querida Zélia, como estão as coisas? — perguntou Laura, a terapeuta.
— Ah, Laura! Ando bastante impaciente com essas notícias recentes. Você deve estar acompanhado as inúmeras notícias de histórias de assédio e supostos crimes sexuais que são expostos para todos. Fico sem entender essa hipocrisia, como se fosse algo novo. Tanto exagero! Essas coisas sempre existiram! No meu tempo não se comentavam essas coisas, mas elas aconteciam? Sim, sempre aconteceram, só que as pessoas se resignavam e tinham vergonha de se expor! Hoje é tudo liberal e qualquer coisa é motivo para se fazer um escândalo!
A terapeuta não recebeu bem o comentário, mas disfarçou. Fez uma pausa e questionou:
— Você não entende o que exatamente, Zélia? Não acha que expor esses crimes seja importante? Você acha que o silêncio do seu tempo era o certo a fazer?
Zélia meneou a cabeça:
— Besteira, homem se engraçar com mulher sempre fez parte da vida! Lembro-me bem, as moças bonitas usavam bem seus atributos, queriam cair nas graças de alguém para conseguir algum benefício, um casamento talvez. Não digo que era o certo, mas era assim que funcionava e estava tudo bem, tínhamos que nos adaptar e jogar o jogo. Eu mesma, tinha um chefe que sempre passava por mim, colocava as mãos nos meus ombros, deixando-as ali, além da conta. O que eu podia fazer? Fingia não notar, saía da cadeira e oferecia um café. Isso era ser adulto, assumir os riscos de mulher que trabalhava fora, se eu reclamasse seria pior! Antes, tudo para a mulher era com dificuldade, escassez, agora que as coisas estão mais equilibradas, melhorando, tudo vira queixa, parece que querem aparecer! Não digo que estão inventando, mas esse exagero de hoje… Tudo ser assédio é um drama desnecessário. Quantas vezes vi meninas se engraçando para homens mais velhos, eles entravam com a segurança e elas com a juventude, ganhavam muito com isso! Se não queriam, era sair de perto. Reclamar para quê? Com quem? Aprendíamos a ignorar! Hoje fica esse falatório como se fosse algo chocante, mas a verdade é que espertinhas e velhos sempre existiram e sempre vão existir!
A terapeuta punha os olhos em Zélia com atenção. A idosa, que era sua paciente há mais de um ano, relatara em várias sessões ter trabalhado a vida inteira e conquistado respeito, numa época em que a vida era ainda mais difícil para as mulheres, e hoje achava dramática a voz feminina que pede respeito e denuncia abusos e assédios. Seus pensamentos duros eram contraditórios com relação ao que viveu.
— Entendo, Zélia, primeiro que mulheres mais jovens e homens mais velhos sempre se relacionaram e sempre se relacionarão, mas numa relação existe troca, juventude e segurança é claro que contam, mas, sem amor, será que dura? Além disso, num relacionamento de verdade, sempre existe o que é positivo e o que é negativo, sempre! No segundo ponto, você acha que as mulheres do seu tempo eram fortes por relevar esses abusos e as de hoje são fracas por denunciá-los? Eu entendo como um processo longo, as mulheres hoje estão abrindo portas que antes eram o cárcere de outras, que não podiam se defender. O que você vê como exagero dos dias de hoje, na verdade mostra a evolução e a liberdade que você não teve em sua época! Muitas mulheres poderiam ter sofrido menos se o mundo de vocês fosse como o de hoje. Entendo a importância que tiveram para o momento em que vivemos. Sem a força e a resiliência que tiveram, como seria?
Zélia olhou para as próprias mãos, pensou por um momento e disse:
— O mundo não pode parar por causa disso! Homem é homem e ponto! A gente calou a vida inteira! Entendo que hoje vocês nos olham de cima, nos julgam como submissas, mas precisávamos de resistência para conseguir nosso lugar. Sei que soa duro quando falo que meninas mais novas com velhos sempre existiram, mas digo porque muitas se vitimizam, mas também se aproveitam das oportunidades quando lhes apetece.
Laura percebeu com as observações de Zélia que seus incômodos com o “barulho exagerado” sobre os assédios de hoje talvez fosse uma dificuldade em admitir que outrora fora assediada muitas vezes. E que precisou silenciar para seguir em frente, para sobreviver na sua época, sem rede de apoio, aceitara abusos como algo natural, que mulheres fortes teriam de lidar com aquilo como mais um desafio. Certamente, essas dores ficariam para uma outra sessão, mas continuou:
— As mulheres de hoje não se sentem superiores, Zélia. Sabemos que tudo o que temos foi com a luta e sacrifício de nossas antepassadas e estamos seguindo a luta, ainda há muito por fazer. É claro que há pessoas oportunistas e sempre existirão, mas isso não justifica os abusos que sempre vemos e ouvimos por aí.
Ao sair da sessão, Zélia caminhou em direção ao seu café preferido, pediu o seu capuccino de sempre e queixou-se consigo mesma que é perda de tempo conversar sobre esses temas com uma terapeuta que não é de sua geração.
Laura, em sua meia idade, pode não ser jovem, mas não conhece na prática a dureza que foi viver naquele tempo. A mulher continuou sua reflexão sobre a conversa que teve com a terapeuta, entendendo que as conquistas de hoje são graças à luta das mulheres do passado. Lembrando disso, sentiu-se menos amarga ao pensar nas mulheres de sua geração e nas de hoje. Apesar de não concordar com a maneira que lidam com os problemas atuais, sabe que há abusos, que são recorrentes em qualquer época e em qualquer lugar do mundo, tornando-se fios que unem mulheres ao longo dos tempos. E todas têm o seu valor.
A semente fora lançada.
Zélia cruzou as pernas esguias e observou, tranquilamente, as pessoas cruzarem céleres pela calçada. A noite começava a se insinuar no céu. Ela inspirou longamente e sentiu-se melhor com seu ar de heroína. Afinal, conseguiu deixar um pouco de lado seu amargor natural e aproveitou a brisa de um gostoso entardecer naquela loucura de cidade…
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Fabiana Saka (@fabianasaka) é psicóloga clínica no Rio de Janeiro, autora do premiado livro infanto-juvenil “As Aventuras de Daniel – não tenha medo de si mesmo” (Ed. Ases da Literatura – Ventania), além de contista e colaboradora de Notibras.
