Era uma tarde de dezembro que ameaçava chover e não chovia.
Eu estava sozinha numa biblioteca quase deserta quando elas começaram a chegar, uma a uma, como se tivessem combinado o encontro há dois séculos.
Maria Firmina dos Reis chegou primeiro, com o vestido simples de professora do interior maranhense e o olhar manso de quem já viu o diabo e escolheu a poesia mesmo assim.
Carolina Maria de Jesus veio em seguida, trazendo cheiro de papelão molhado e um caderno surrado debaixo do braço.
“Trouxe o Quarto de Despejo, caso alguém aqui ainda ache que favela é cartão-postal.”
Narcisa Amália apareceu de chapéu de pluma, mas sem pluma nenhuma: só a coragem inteira de quem assinou o nome completo num jornal de 1870.
Nísia Floresta trouxe um mapa da Europa dobrado no bolso e uma filha imaginária pela mão.
“Fugi com ela no colo e com um livro na cabeça. Até hoje carrego as duas.”
Pagu entrou fumando um cigarro que não acendia (regra da biblioteca) e rindo alto demais.
“Presas vinte e três vezes, meninas. Na vigésima quarta eu já levava travesseiro.”
Ana Montenegro, já de cabelos brancos, serviu café preto para todas numa xícara rachada.
“Na cadeia eu dava aula de marxismo pras ladras de frango. Uma saiu sabendo quem era Lênin e quem era ela mesma.”
Conceição Evaristo chegou por último, com um caderno de escrevivências na mão e a voz calma de quem sabe que a palavra cura.
“Nós escrevemos com o sangue que não derramaram.”
E então a porta rangeu de novo.
Entrou Lélia Gonzalez, de turbante alto, brincos de ouro batido e aquele sorriso que desmonta qualquer teoria racista.
Chegou falando alto, como sempre, misturando português, iorubá e psicanálise numa frase só:
“Minha gente, pretuguês é a nossa língua, sim!
Améfrica Ladina é o nome desse chão!
E o racismo à brasileira é aquele que sorri enquanto te mata de amor.”
Sentou-se na cabeceira da mesa que não existia e continuou:
“Eu não vim pra ser incluída na casa-grande.
Vim pra botar fogo na senzala e dançar em cima das cinzas.
Feminismo branco? Só se for com pimenta e dendê.
Porque mulher negra não tem crise de identidade:
tem crise de paciência.”
Todas riram. Até Carolina, que raramente ria, deu uma gargalhada que fez tremer as estantes.
Lélia olhou para cada uma e disse:
“Vocês começaram o serviço, minhas irmãs.
Maria Firmina inventou o romance negro com alma.
Carolina mostrou que miséria tem endereço.
Narcisa assinou o nome inteiro antes de ter direito a voto.
Nísia fugiu de casamento-prisão.
Pagu levou tiro por greve.
Ana transformou cela em universidade.
Conceição deu nome à escrevivência.
Eu só vim pra dizer que a gente continua.
Com axé, com teoria, com samba no pé e faca nos dentes.
Porque pretas intelectuais não pedem licença:
ocupam o espaço e ainda servem café.”
E serviu.
Café preto, forte, sem açúcar.
Quando levantei para ir embora, o livro que eu folheava tinha mudado.
Na última página, agora havia uma nova dedicatória, escrita com a letra firme e dançante de Lélia:
“Para as que vieram antes,
para as que estão agora,
e para as que ainda vão nascer gritando:
Nós não viemos para ser toleradas.
Viemos para ser tempestade.
Com amor,
Lélia
(e todas as ancestrais que riem comigo).”
Saí da biblioteca com o coração em festa.
A chuva, que ameaçava o dia inteiro, finalmente caiu.
Mas era uma chuva boa, de limpeza.
Como se o céu tivesse entendido, enfim,
que aquelas mulheres não só carregaram o Brasil nas costas.
Elas carregaram o Brasil no colo,
cantando baixinho,
até ele aprender a andar sozinho.
E ainda cantam.
