Notibras

As noites solitárias do João

Acordou quando a tarde avançava de modo confiante para a noite, que prometia nada além do que o mesmo de sempre. Pensou por alguns instantes diante das opções e, com a face carregada de tédio, decidiu por pedir uma pizza tamanho família, ainda mais porque receber outro não de Laura estava fora de cogitação. João não suportaria ser rejeitado mais uma vez. Estaria a ex-namorada se vingando de anos de descaso?

Lavou o rosto e encarou o reflexo, que se mostrava cada dia mais intransigente com os rumos que o homem tomara. O que João queria provar? E para quem? Se ele soubesse que Laura tolerara a falta de atenção por tanto tempo não por amor, mas pena, era possível que subisse no parapeito da janeta e saltasse para a morte, mesmo que morasse no térreo. Que ao menos os arranhões o fizessem despertar para a realidade, já que a falta de bom-senso parecia perene.

Bastor pegar o celular para que a dúvida pairasse novamente sobre o sujeito. Teria a mulher se arrendido de ter se negado a passar a noite com ele. Sim, certamente estaria aguardando que ele ligasse novamente. Talvez se fizesse de difícil por uma ou duas frases, mas não resistiria quando ele dissesse: “Laura, meu amor, estou com saudade!”

— Ah, João, vá te catar! E não me ligue mais, pois o Carlos não gosta.

E Laura desligou sem nem mesmo se despedir. Nem um “Tchau!” ou “Até nunca mais!”. Mas quem era Carlos? Ele conhecia ao menos dois, mas um era um primo distante que morava em Portugal há mais de duas décadas, e nunca tivera em Brasília. Já o segundo, era um antigo colega de faculdade, mas que também não chegou a ter contato com Laura. Ou teve e ele não sabia? Não, não e não! Mesmo assim, resolveu tirar a prova dos nove

— João? Há quanto tempo!

— Sim.

— E o que manda?

— Você tem visto a Laura?

— Laura? Que Laura?

— Aquela garota que eu saía.

— Cara, não sei quem é essa.

— Ah, tá! Pensei que soubesse.

— Não.

— Beleza, Carlos. Pensei que conhecesse. Então, tá! Depois vamos marcar um chope.

— Beleza. É só marcar.

— Valeu.

— Valeu.

Convencido de que o tal Carlos da Laura não era o seu colega, muito menos o primo que residia na Europa, João sentiu certo alívio. No entanto, antes que pudesse relaxar, eis que a angústia se instalou de vez. Como seria esse Carlos? Essa dúvida o encheu de inseguranças. A incógnita da aparência do rival o fez voltar ao espelho e se indagar. Seria mais alto? Seria mais bonito? Era inteligente? Trabalhava com o quê? Seria bom de cama? Carlos! Carlos! Carlos! Maldito Carlos!

Pensou em ligar novamente para Laura. Precisava dirimir qualquer dúvida. Que ela o xingasse, João não mais se importava. Que o mandasse para o inferno, ele até iria, mas precisava saber, era questão de honra. E honra de homem ninguém resvala.

João pegou o telefone celular e ligou. Ocupado. Ligou novamente. E, mais uma vez, deu ocupado. Cheio de brio, o sujeito seguiu em frente e fez nova ligação. Ah, agora estava chamando. Pois Laura iria ouvir umas poucas e boas. Ah, se ia. Atendeu.

— Uma pizza de calabreza tamanho família, por favor.

……………………

Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

Compre aqui

https://www.joanineditora.com.br/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho

Sair da versão mobile