Após meses de tentativas, o Café Literário, finalmente, conseguiu agendar uma entrevista com as maravilhosas, incríveis, incansáveis, geniais, estupendas e talentosíssimas Ilma Pereira e Joseani Vieira, as Totalmente Literárias. As duas, muito gentilmente, conversaram com a nossa equipe e revelaram um pouco da trajetória de cada uma, bem como os planos guardados no baú, para deleite dos amantes da literatura.
Trajetórias e formação
Ilma Pereira e Joseani Vieira, como vocês contam a história da própria trajetória até chegarem ao momento atual da carreira?
ILMA: Sempre fui uma leitora voraz. Mas pouco escrevia. Um dia, comecei um projeto de escrita diária num caderninho com meus alunos e passei a escrever todos os dias. A partir de então, enchi dezenas de caderninhos com crônicas e contos do cotidiano que se transformaram nos livros que publiquei.
Já são 5 livros físicos, 2 e-books e participação em muitas antologias. E sempre escrevendo o próximo livro.
JOSEANI: Me interessei por livros ainda na infância e, como ficava muito tempo só e pensava demais (ainda penso), comecei a conversar com o papel. Minha professora dos anos iniciais costumava colocar as redações em destaque num mural. As minhas sempre ocupavam esse espaço. Aos onze anos ganhei um concurso de poesia na escola e passei a colecionar minhas escritas. De lá para cá nunca mais parei de ler ou de escrever. Participo de projetos de escrita e leitura, de antologias, revistas e concursos. Tenho um livro solo em andamento e, juntamente com a Ilma Pereira, divulgo a literatura nas redes sociais através da página @totalmenteliterárias.
Vocês têm carreiras solo extensas, com muitos projetos já realizados. Ainda assim, buscam constantemente o diálogo com outros autores e autoras, sobretudo na divulgação da literatura. Como enxergam essa troca de experiências com escritores de diferentes regiões do Brasil? Na visão de vocês, como anda a literatura brasileira hoje — forte e diversa ou ainda carente de algo?
Estamos vivendo um bom momento da visibilidade da literatura nacional proporcionada pelas redes sociais. O mundo digital nos permite conhecer a diversidade de autores e escritas dos 4 cantos do nosso país, e somos sempre surpreendidos com a pluralidade de vozes que compõem a rica trama da literatura nacional e mundial. Mas os autores independentes ainda carecem de apoio, de estrutura, para que seus livros alcancem o mercado por um preço acessível. É muito dispendioso e tortuoso o caminho de quem publica de modo independente.
Totalmente Literárias
O que motivou a criação das Totalmente Literárias? Qual foi o impulso inicial que reuniu vocês nesse coletivo?
Somos apaixonadas pela leitura e sempre sentimos o desejo de compartilhar nossas experiências com os livros que passam pelas nossas mãos. Acreditamos que a leitura precisa ir além do universo particular de quem lê, ultrapassando fronteiras e conectando pessoas através das histórias. Inicialmente, fazíamos isso somente em nossas páginas pessoais, mas percebemos que, ao unir forças, poderíamos alcançar ainda mais pessoas e reforçar nosso propósito: mostrar que a literatura pode ser leve, envolvente e fundamental para compreender o mundo.
Além disso, nossa ideia era criar um espaço dinâmico, capaz de instigar a curiosidade e a imaginação dos leitores. Assim nasceu a página, que primeiro foi batizada de “Fofoqueiras Literárias”. Porém, ao descobrir que esse nome já existia, optamos por rebatizá-la como “Totalmente Literárias”. Essa mudança foi muito positiva, e somos extremamente gratas pela acolhida e pelo carinho que temos recebido dos seguidores desde então.
O nome do coletivo é forte e afirmativo. O que representa esse “totalmente”? O que vocês quiseram comunicar ao escolher essa identidade?
Nas redes sociais a interação com o mundo real atrai a atenção dos internautas. Sentimos a necessidade da mudança do nome da nossa página na mesma época que “Ainda estou aqui”, protagonizado pela Fernanda Torres, venceu o Oscar de melhor filme estrangeiro. Com isso, uma situação engraçada ocorrida com ela e relatada em um programa de entrevista, que virou meme, voltou à tona. No episódio havia a frase: “Totalmente drogada.” E as pessoas que reativaram o meme passaram a mencionar a Fernanda como “Totalmente Premiada”. Aproveitamos o gancho que representa tão bem a identidade do nosso projeto que é totalmente literário. Mantivemos a sonoridade e assim surgiu o nome “Totalmente Literárias”
Quais têm sido as maiores inspirações e também os maiores desafios de trabalhar coletivamente com outras escritoras e escritores?
Nosso objetivo maior é mostrar que ler é bom, traz benefícios e pode ser prazeroso, divertido. Ao trazer dicas de livros e valorizar os autores nacionais contemporâneos, queremos seduzir os leitores para que leiam cada vez mais; com as fofocas literárias, provamos que o mundo literário é divertido e surpreendente. E temos aprendido muito com os escritores/escritoras que entrevistamos. Cada live é uma descoberta apaixonante: a literatura nacional é rica, pulsante, traz em seu bojo a criatividade e exuberância do Brasil. Gostaríamos de entrevistar mais autores, mas o desafio maior é ajustar as agendas.
Há algum projeto das Totalmente Literárias — atual ou futuro — que vocês gostariam de compartilhar?
Por enquanto, queremos manter ativo o que já fazemos e alcançar mais seguidores de forma orgânica como tem sido até então. Mas, não se enganem, nossas mentes são uma fábrica de ideias.
Como vocês descreveriam o processo criativo de cada uma? Existem rituais, manias ou momentos específicos em que a escrita flui com mais naturalidade?
ILMA: Minha escrita flui com muita tranquilidade no período da manhã, quando eu me isolo no terraço com minhas doguinhas a meus pés.
Gosto de escrever à mão as primeiras versões de meus livros. Simplesmente não rola ir direto para o computador.
JOSEANI: Gosto de escrever nas primeiras horas da manhã, todos os dias. Tenho papéis por todos os lados da casa e neles escrevo a qualquer momento as ideias que surgem para depois aprimorá-las. Escrevo com o que tiver ao meu alcance. Já escrevi o parágrafo de um conto na parede da cozinha, pois não podia deixar de mexer o conteúdo de uma panela e nem deixar a ideia escapulir. Nem sempre preciso de inspiração para escrever. Amo escrever por encomenda e quando sou desafiada. Não tenho um ritual, mas, normalmente escrevo com a tv ligada ou ouvindo músicas, o silêncio excessivo me assusta.
Há temas, personagens ou questões que insistem em acompanhar vocês ao longo da obra, mesmo quando tentam escapar deles?
ILMA: Gosto de abordar temas do cotidiano e dar vida a personagens femininas, suas lutas, suas dores e suas maneiras de resolver as questões que são comuns na sociedade brasileira, urbana ou rural. Amo esses assuntos nem tento fugir deles.
JOSEANI: Escrevo por observação, provocação e emoção. Com isso, acabo escrevendo sobre temas e gêneros diversos.
A escrita de vocês dialoga intensamente com o cotidiano, com o feminino e com questões sociais. O que mais impulsiona a escrita: o incômodo, a beleza, a memória, o afeto ou o desejo de transformação?
ILMA: Minha escrita sempre traduz muito de minhas lembranças da infância, dos livros que li e da observação do entorno, das pessoas que o compõem. Escrevo para registrar e eternizar histórias.
JOSEANI: Todas as opções. Depende da motivação para a escrita de determinado texto. Tenho a necessidade de registrar meus pensamentos e, com certa frequência, pessoas se identificam com o que escrevo e acolhem meus microcontos, contos, crônicas e poemas.
Literatura, mercado e desafios
Na opinião de vocês, quais são hoje os maiores desafios enfrentados por escritoras brasileiras fora do eixo Rio–São Paulo?
As maiores dificuldades são ser notadas e publicadas por uma editora, restando então a solução de ser autora independente, tendo que ficar responsável por todas as etapas da escrita, publicação, divulgação e vendas. É muito difícil e muito dispendioso ser uma autora independente, mas uma vez que as editoras preferem publicar só os famosos, os novos autores acabam tendo que ser independentes, porém a divulgação e a visibilidade ficam muito comprometidas, porque as editoras é que têm acesso às grandes feiras e às bienais por exemplo.
As redes sociais e os eventos literários digitais realmente ampliaram o alcance da literatura independente? Ou ainda falta espaço concreto para mulheres escritoras?
Sem dúvida, as redes sociais e os eventos literários digitais ampliaram o alcance da literatura independente, mas o mundo editorial ainda dá mais espaço para o homem branco hétero e do eixo Rio-São Paulo. Um bom exemplo disso foi o último Jabuti que privilegiou, na maioria das escolhas, os homens.
Mas as mulheres têm se destacado no cenário nacional com a escrita potente, de denúncia, de reflexão, provando que as mulheres também sabem contar ótimas histórias. Inclusive, em nossa opinião, quando se trata de escrever um bom romance, as escritoras estão disparadamente em vantagem literária.
O escritor Daniel Marchi costuma dizer que “literatura não se faz sozinho”, que escritores precisam formar redes. Observa-se que, em diversas regiões do país, há autores promovendo movimentos potentes — como a Joseani em Roraima, a Ilma em Minas Gerais, a Edna Domenica em Santa Catarina e o J. Emiliano Cruz em São Paulo. Como vocês enxergam esse movimento nacional que, mesmo geograficamente distante, parece convergir para um mesmo propósito: fortalecer e divulgar a literatura?
Acreditamos profundamente que o esforço coletivo é essencial para o fortalecimento da literatura. Em qualquer circunstância, a união faz com que os participantes se tornem mais fortes, permitindo que conquistem maiores espaços de visibilidade e comercialização para suas obras. Quando um grupo se organiza de forma coesa e trabalha em prol da divulgação literária, os benefícios se multiplicam. Caso esse grupo se formalize como uma instituição, torna-se possível acessar verbas do estado destinadas ao fomento da cultura. Dessa forma, é viável promover ações mais atrativas e garantir remuneração aos participantes, ampliando o alcance das iniciativas. No entanto, mesmo de maneira informal e voluntária, é possível ampliar a visibilidade dos escritores. A atuação conjunta oferece oportunidades para que autores alcancem espaço no cenário literário local, fortalecendo a presença da literatura em diferentes regiões.
Se pudessem indicar um único livro que traduzisse o espírito das Totalmente Literárias, qual seria — e por quê?
Adoramos a pergunta e temos sim um livro que nos representa: A mulher que escreveu a Bíblia, de Moacyr Scliar, vencedor do Prêmio Jabuti no ano 2000. Motivos: esse livro traduz perfeitamente o espírito bem-humorado e provocativo da nossa página. A obra revisita uma narrativa antiga com ousadia, inteligência e leveza, valorizando a voz feminina e brincando com os bastidores da literatura. A personagem central é leve, provocativa e cheia de personalidade, do mesmo jeitinho de nossas postagens literárias.
E que mensagem vocês deixariam para mulheres que escrevem, mas ainda não encontraram coragem de se assumir como escritoras?
Escrevam e publiquem: o mundo precisa e vai gostar de ouvir vocês. Lembrem-se dessa frase da escritora Toni Morrison: “Se há um livro que você quer ler, mas não foi escrito ainda, então você deve escrevê-lo”.
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Ilma Pereira nasceu em Belo Horizonte, mas cresceu no coração do interior mineiro, Jaboticatubas, onde a natureza tranquila disputava espaço com seu grande amor pelos livros. Enquanto as crianças jogavam bola ou brincavam de casinha, Ilma mergulhava em livros e suas histórias.
Formou-se em Letras, porque já vivia uma história de amor com a literatura desde pequena. Como professora de Língua Portuguesa em Belo Horizonte, colecionou histórias inusitadas de sala de aula, que acabaram virando seu primeiro livro, “Entre risos e sustos – Crônicas divertidas de sala de aula” (2019). E não parou por aí! Logo veio “O afilhado do capeta e outros contos” (2020), porque Ilma adora botar um tempero nas narrativas com umas pitadas de humor e mistério.
Em 2020, em plena pandemia, Ilma venceu um reality literário, o Best Seller’s Brasil! Dessa aventura, nasceu Perspectiva (2021), escrito em coautoria.
Em 2022, lançou seu primeiro romance: “O que os quilômetros não te contaram”, e, em 2023, presenteou o mundo com não uma, mas duas noveletas: “Maria Joaquina” e “O retorno – Sinais de um morto”.
Em 2025, lançou “Não olhe para trás”, uma mistura bem mineira de suspense, mistério e terror.
Além de escrever, Ilma dedica-se a ajudar outros escritores a melhorarem seus textos, como se fosse uma espécie de fada madrinha literária. No tempo livre, ela faz o que ama: curte a família, viaja e, claro, lê como se não houvesse amanhã.
Joseani Vieira é carioca de nascimento, mas de alma mergulhada nas águas do Rio Branco, encontrou em Roraima o chão onde suas palavras criam raízes. Escritora de prosa e verso, costura diariamente sua escrita com papel, tela virtual e o tecido sensível dos sentimentos, sempre bordado por reflexões. Participa de antologias, revistas virtuais e coletivos literários, e utiliza as redes sociais para espalhar seu amor pela leitura e pela escrita.
Instagram: @joseaniv | @totalmenteliterarias
