Nasceu em julho de 1954 e, apesar da natureza, não foi notada. Gostava de correr livre pelo sítio da família e, não raro, perdia a hora para tudo.
— Sebastião! Sebastião! Sebastião Jorge!
Não que fosse surda ou desligada, era questão de se voltar para um mundo que lhe era tão próprio. Ninguém a entendia, gente do interior, você pode dizer, não entende das coisas direito. Como se gente não fosse gente em qualquer lugar.
— Onde foi que você se meteu, menino?
— Tava ali, mamãe.
— Ali onde?
A criança apontava, a mãe mal olhava, atarefada demais para coisas de crianças. Que obedecesse logo, recreio não tinha vez por ali.
— Cadê o Raimundo?
— Num sei, mamãe.
— Hum! Pois vá atrás do seu irmão.
— Num posso, mamãe.
— Num pode? Por quê?
— Ele disse pra eu não falar pra senhora.
— Falar o quê?
— Ele tá com a Fabiana.
— Hum! E onde eles estão?
A criança apontou para o descampado, cujo horizonte parecia impossível. A mãe torceu os lábios, olhou para a criança.
— Você é igual ao seu irmão.
Queria dizer que não, o silêncio se instalou.
Quando os primeiros sinais da puberdade apareceram, desejos, agora evidentes, foram reprimidos. E a frase da mãe reverberava por todos os cantos sem tocar no íntimo da criança.
— Você é igual ao seu irmão!
Aos 26, após diversos subempregos, a criança conquistou uma vaga no Banco do Brasil. Tímida, sentia-se constrangida por conta do nome no crachá: Sebastião Jorge. Não reclamava, abaixava os olhos.
Não tardou, vários colegas se afastaram, precisavam manter ao menos as aparências. Poucos, raríssimos, talvez sensibilizados, se fizeram amigos. E se mantiveram firmes ao seu lado, ainda quando as mudanças se tornaram evidentes.
A criança ganhou um apelido carinhoso ou, não duvido, que mascarava o seu ser. A criança, quase muda, aceitou-o e, creia-me, sentiu certo alívio por não ter que precisar mais ouvir as pessoas a chamarem de Sebastião Jorge. Agora era Neném no trabalho. Fora, adotara outro nome.
Em silêncio, aposentou-se. E, com o tempo, vários problemas de saúde lhe fizeram sala: diabete, pressão alta, má circulação… Coisas da idade, coisas herdadas, coisas de hábitos…
Com a morte rondando, a criança, assim que completou 65 anos, decidiu. Nada mais de Sebastião Jorge. Nada mais de apelidos carinhosos. Cansada de viver incompleta, decidiu por ser operada.
— Você tem várias comorbidades.
— Sei disso, doutor.
— Mas você pode não voltar da anestesia.
— Não tenho medo disso, doutor. Só peço uma coisa.
— O quê?
— Se eu morrer durante o procedimento, por favor, complete a cirurgia.
— Mas…
— Por favor, doutor, não desista de mim. Se eu não consegui viver plenamente como sou, pelo menos quero morrer como uma mulher completa. Sonia Clair.
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Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).
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