Hoje, 18 de abril, nascia no Rio de Janeiro, em 1906, poeta Augusto Frederico Schmidt, nome que já ocupou lugar central na vida intelectual brasileira e que hoje, fora de certos círculos de leitura, parece menos lembrado do que deveria. Schmidt pertence àquela linhagem de escritores que não cabem apenas na estante de poesia: foi também homem de imprensa, editor de raro faro, empresário de peso e figura influente na vida pública brasileira. A amplitude de sua atuação, em vez de diluir sua importância literária, ajuda a explicar a singularidade de sua obra.
Sua história começa num ambiente de relativo conforto, em uma família de comerciantes estabelecidos no Rio. A infância em Copacabana, ainda longe do bairro congestionado em que depois se transformaria, traz a imagem de uma cidade quase íntima, com praia pouco ocupada, casas baixas e uma vida doméstica marcada por tias, quintais e pequenas cenas que mais tarde se infiltrariam em sua sensibilidade. Esse primeiro mundo, contudo, não durou inteiro. A viagem da família à Europa para tratamento de saúde dos pais terminou de modo brutal: o pai morreu na Suíça, em 1913, e o menino Augusto voltou ao Brasil para uma vida já atravessada pela perda e pela precariedade.
Esse dado biográfico importa não por alimentar a velha tentação de transformar poeta em personagem de luto permanente, mas porque ajuda a entender a matéria humana de sua escrita. Um dos episódios mais reveladores dessa formação é o do primeiro poema, “Zurica”, nascido da tristeza do menino diante da separação de uma cachorra de estimação. A cena é simples, quase doméstica, e justamente por isso reveladora: antes de qualquer grandiloquência, Schmidt descobriu a poesia no contato entre afeto, ausência e memória. Há algo de decisivo nisso. Sua obra, mesmo quando sobe de tom, nunca perde inteiramente essa raiz concreta, sentimental sem ser fraca, íntima sem ser miúda.
A formação escolar de Schmidt foi irregular. Passou por vários colégios, não se adaptou bem à disciplina convencional e acabou reprovado no exame para o Colégio Pedro II. O fracasso escolar, porém, não se converteu em pobreza intelectual. Ao contrário: o jovem que não se enquadrava com facilidade na rotina acadêmica lia com avidez, aproximava-se de escritores, frequentava ambientes literários e aprendia no comércio e nas ruas o que mais tarde chamaria de sua “universidade”. É um traço que o acompanha por toda a vida: certa desconfiança do formalismo, combinada com apetite genuíno pela cultura. Não por acaso, ele próprio se colocava como “alérgico ao academicismo”.
Ainda jovem, trabalhou como caixeiro, ajudante de loja, vendedor e comerciante. Essas passagens, que em muitos escritores seriam tratadas como desvio da vocação literária, em Schmidt parecem ter ampliado a percepção do país real. O poeta não nasceu numa torre. Conviveu com balcões, firmas, viagens, negociações, dificuldades materiais e com a experiência de ter de ganhar espaço fora dos circuitos protegidos. Ao mesmo tempo, desde cedo escrevia versos, publicava em pequenos jornais e se aproximava de nomes que marcariam a cultura brasileira. Em São Paulo, ainda muito novo, conviveu com autores como Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Ribeiro Couto e Plínio Salgado. Em 1928, publicou seu primeiro livro, Canto do Brasileiro.
Esse título inaugural já anuncia algo importante: Schmidt não seria apenas um poeta de recolhimento pessoal. Havia nele uma inquietação mais larga, uma necessidade de pensar o Brasil, de inserir a experiência íntima num quadro histórico e nacional. Sua poesia, ao longo dos anos, cresceria justamente nesse ponto de tensão entre o eu e o país, entre a oração e o tumulto, entre a solidão e a vida pública. Depois de Canto do Brasileiro, sua obra se ampliou em livros como Cantos do Liberto, Pássaro Cego, Estrela Solitária, O Galo Branco e Fonte Invisível, títulos que bastam para sugerir a permanência de certos núcleos: cegueira e visão, claridade e sombra, exílio e procura.
A crítica de seu tempo percebeu com nitidez que havia ali uma voz incomum. Manuel Bandeira enxergou em Schmidt uma dicção de cadência bíblica; Carlos Drummond de Andrade destacou o modo como sua poesia, recusando o ornamento ostensivo, fazia nascer força lírica de palavras aparentemente simples. Essas observações continuam úteis. Schmidt não é um poeta do brilho fácil nem da miniatura engenhosa. Sua poesia tem fôlego largo, gosto de invocação, desejo de transcendência e um acento grave que nunca depende apenas de pose. Mesmo quando o verso se aproxima da oração, não perde contato com o mundo; mesmo quando fala de Deus, não abandona o homem.
Mas reduzir Schmidt ao autor de poemas importantes seria insuficiente. Sua atuação como editor teve peso decisivo na literatura brasileira dos anos 1930. Foi por sua editora que vieram a público obras fundamentais como Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, Caetés, de Graciliano Ramos, e O País do Carnaval, de Jorge Amado. O caso de Jorge Amado é emblemático: o romance ganhou ampla repercussão, e a atividade editorial de Schmidt foi vista por contemporâneos como uma intervenção de alto impacto na cena literária. Houve quem dissesse, com razão, que ele foi um “José Olympio a seu modo”. Não é exagero. Seu catálogo e seu faro ajudaram a mover a vida intelectual brasileira.
Esse trânsito entre poesia, edição e mundo dos negócios deu a Schmidt uma posição rara. Ele não era um escritor apartado da realidade material do país. Participou de empreendimentos econômicos relevantes, esteve ligado a empresas de grande porte e figurou entre os introdutores do supermercado de autosserviço no Brasil, com a rede Disco. Seria simplista enxergar nisso uma contradição com o poeta. No seu caso, o empresário e o homem de letras se cruzavam numa ideia recorrente: a de que o Brasil precisava crescer, organizar-se, pensar grande e abandonar a vocação para o atraso. Havia, em Schmidt, uma imaginação nacional que não se limitava à metáfora.
Essa faceta aparece de maneira clara em sua relação com Juscelino Kubitschek. Homem de confiança de JK, Schmidt escreveu discursos, participou de formulações importantes do governo e foi apontado como principal negociador da Operação Pan-Americana, lançada em 1958. A proposta buscava articular um programa de desenvolvimento para a América Latina, sob o entendimento de que o combate à miséria e ao subdesenvolvimento era também uma resposta política ao avanço do comunismo no contexto da Guerra Fria. A operação não se realizou nos termos imaginados, mas sua relevância histórica permanece, e Schmidt esteve no centro desse esforço. A essa altura, o poeta já era também personagem ativo da vida diplomática e do pensamento estratégico do país.
Talvez essa multiplicidade tenha produzido um efeito ambíguo sobre sua posteridade. O homem público, o articulador, o empresário, o amigo de presidentes e o conferencista vistoso por vezes obscureceram o poeta perante as gerações seguintes. Ainda assim, quando Schmidt morreu, em 8 de fevereiro de 1965, a repercussão foi ampla, com destaque na imprensa brasileira e eco fora do país. Não se tratava da despedida de uma figura lateral. O Brasil sabia que perdia alguém de forte presença intelectual e cívica. O problema veio depois, quando a memória literária, sempre seletiva e nem sempre justa, foi deixando seu nome menos visível do que sua obra autorizaria.
Voltar a Augusto Frederico Schmidt, portanto, não é um exercício de arqueologia sentimental. É uma forma de reler o século XX brasileiro a partir de um autor que viveu intensamente a palavra e a ação. Sua poesia guarda a infância ferida, a inquietação religiosa, o amor, a história, a nação e o desejo de grandeza. Sua trajetória mostra um escritor que não teve medo de se comprometer com o seu tempo, ainda que isso lhe tenha custado, mais tarde, certa leitura apressada ou enviesada. Num momento em que tanto se fala de literatura em chave estreita, Schmidt reaparece como lembrança útil: a de que um poeta pode ser profundamente lírico sem ser alheio ao mundo, e de que a cultura brasileira já produziu figuras capazes de unir imaginação, inteligência e presença pública sem pedir licença para existir.
No aniversário de Augusto Frederico Schmidt, vale devolver seu nome à conversa. Não por mera reverência, mas porque sua obra ainda oferece aquilo que a boa literatura costuma oferecer quando sobrevive ao tempo: voz própria, densidade humana e um modo particular de olhar o país sem empobrecê-lo. Schmidt pertence a essa tradição dos autores que escreveram com ouvido para o mistério, mas com os pés fincados no chão brasileiro. Talvez seja essa a melhor razão para relê-lo hoje.
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Cecilia Baumann, especial para o Café Literário.
