Notibras

BENÇA, MÃE!

Tenho a mania de anotar pensamentos escritos em portas de banheiros de rodoviárias, grafites de muros, guardanapos que sempre terminam no frasco sobre as mesas dos botecos de periferia por onde ando e andarei.

E guardo também cadernos, pequenas cadernetas de apontamentos; bolsas e gavetas cheias delas.

Um dia, quem sabe, servirão de combustível para a grande fogueira das memórias, aqueles livros jamais escritos, sempre sonhados.

A CRÔNICA DE LUÍZA NOGUEIRA E A CARTA EM SP

Em 20/01/26, ao ler a crônica “Entre Caminhos e Raízes”, da escritora e colega aqui do Café Literário, imediatamente fui arremetido às minhas manias e lembranças dos meus garimpos aí pelas estradas.

Hoje quero contar algo ocorrido próximo ao Dia das Mães lá no ano de 2014, na capital de São Paulo.

Pois então, abrir a gaveta dos meus escritos “roubados e estocados”, a es/história estava lá me esperando.

(O fato)

Caminhando sem rumo certo, parei numa padaria da avenida Nova Cantareira, entre Santana e Tucuruvi, zona norte de São Paulo, Sampa, pra tomar uma cervejinha, pois ninguém é de ferro. Encontrei este texto, escrito numa folha suja de papel, sobre a mesinha na calçada e guardei.

(O texto)

*Amanhã é Domingo. Dia das Mães. Preciso relaxar e falar com ELA.

Onde estará a minha mãe?

1- Querida amiga de todos os segundos: pra começar, MUITO OBRIGADO por estar sempre aqui ao meu lado;

2- A senhora é a mãe certa para mim, sem precisar mudar nada. É a casa que habitei e aquela que para sempre me habitará. A concretização do sagrado, além de religiões, grupos ou teses que reduzem/separam: a Senhora é Fé e Amor. Pura Dedicação.

3- Eu recebo com alegria a vida que a senhora e meu pai me deram. Foi através de vocês dois que a vida plena chegou para mim, e isso é o sopro, o fluxo, o fim. E o recomeçar de tudo.

4- Eu lamento todas as vezes que fui impaciente, ingrato e Meu lugar é de filho e a vida não avança, não se constrói uma jornada sem o respeito fundamental a cada passo, a cada desafio.

5- A senhora veio primeiro e eu vim depois. Eu sou o aprendiz e a Senhora o Farol.

6- A senhora é infinita e eu tão pequeno.

7- A senhora me trouxe à luz e eu recebi de graça a vida.

8- A senhora é a mãe e eu sou o filho. Isto faz todo o sentido.

9- Eu admiro e reconheço a sua força, coragem e amor incondicionais em aceitar a minha vida em sua vida.

10- Eu tomo tudo que vem da senhora com plena alegria e honra.

11- A senhora sempre será a mãe e eu, sempre seu filho, e isso me alegra infinitamente. Jamais estarei sozinho.

12- Eu vou fazer algo bom com a vida que a senhora e o pai me deram. Eu vou cuidar de mim, vou seguir adiante na vida, levando comigo tudo que vocês generosamente me oferecem. E tudo que recebi de vocês é o bastante para eu seguir. É tudo o que eu preciso e não me falta nada. Amor, proteção e educação fundamentais.

13- Gratidão eterna. A senhora está em todos os segundos comigo. Deus é Mãe.

14- A senhora me abençoa?

15- Onde quer que a senhora esteja, “Bença, mãe!” … e Paz!

A vida segue sendo escrita aí pelos anônimos nas paredes, muros, portas de banheiros públicos.

Carrego comigo o bilhete sujo com a carta mais “limpa” que já encontrei.

……………………..

Gilberto Motta é escritor, jornalista, professor/pesquisador e garimpeiro de pistas e garrafas de náufragos em forma de frases e textos aí pelos caminhos. Vive na vilazinha da Guarda do Embaú, litoral de SC.

Sair da versão mobile