Espaços
Os sótãos são os cemitérios das coisas de casa.
Emanuele Coccia
Vivo num ap de 53 m²
não possuo sótão.
Nessa antiga residência cedida
há porões improvisados
um desvão comum
em que deixamos, eu e mãe
os ossos da família:
objetos últimos sem dono
roupas incabíveis
coisas quebradas.
Esse lugar não tem nome
porque chamaram
banheirinho de empregada.
Sob a minha cama
um arquivo.
Sob a cama dela:
sobras das mudanças.
Na delicada domesticidade
um vestido pode não ser
apenas um vestido
mas o presente de uma avó
uma coisa de não usar no mundo
a certeza de que algo falhou.
Os armários
são torrente de enganos
ambulantes.
Os sótãos
são os espaços vulcanizados do lar
o que cresce para dentro
e um dia serviu ao extramuro.
Carregamos esses cômodos
como barcos
na segunda pele.
A linguagem ao contrário —
o poema.
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Betine Daniel (Rio de Janeiro, 1981) é poeta, formada em Letras e servidora pública. Publicou Uma casa perto de um vulcão (Patuá, 2018), Ainda ancora o infinito (Moinhos, 2019), corpo-esconderijo (Libertinagem, 2024) e Harpia harpyja (Caravana, 2025). Também possui poemas em plaquetes, revistas e antologias impressas e digitais.
