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Bloco presta homenagem à mais antiga profissão

O dia ainda nem esquentou direito e a região que já foi chamada de Zona do Mangue, no Rio de Janeiro, se mexe como se tivesse memória própria. Portas entreabertas, salto alto descansando na soleira, rádio antigo disputando espaço com o batuque que começa a afinar. O bloco que homenageia as mulheres mais antigas da Vila Mimosa e do velho Mangue vai sair, e nada ali parece casual. Nos bastidores, o brilho é sempre mais sincero.

A costureira ajusta uma faixa lilás no ombro de uma senhora de cabelos muito claros, presos com cuidado de quem aprendeu a enfrentar o tempo de frente. “Hoje eu vou de rainha”, ela diz, rindo, mas com a voz embargada. Trabalhou quarenta anos na noite. Conheceu delegados, poetas, estivadores, malandros e homens que prometiam o mundo em prestações que nunca chegaram. “Se eu soubesse que um dia iam bater palma pra mim, tinha guardado um vestido melhor.” Mas o que ela guardou foi a história.

O bloco nasce dessa vontade de contar o que quase sempre ficou no sussurro. Entre um ajuste de maquiagem e outro, organizadores correm atrás do carro de som, conferem a lista das homenageadas, distribuem água, abraços e instruções. Não há luxo; há urgência. É preciso colocar na avenida quem passou a vida inteira aprendendo a entrar pelas portas dos fundos.

Na calçada, um antigo dono de bar observa a movimentação como quem folheia um álbum de família. “Muita gente deve samba a elas e nem sabe”, comenta. Ele viu nascer parcerias, músicas e amores improváveis sob a luz vermelha que durante décadas marcou a paisagem da região.

Quando a bateria finalmente esquenta, algo muda. As mulheres que antes eram cochicho viram enredo. Os nomes, alguns artísticos, outros de batismo recuperado, ecoam no microfone. Há quem chore. Há quem ria da própria emoção. Há quem desfile como se estivesse, mais uma vez, começando.

Dona Celeste — que já foi espanhola, colombiana, francesa, conforme a fantasia exigia — segura firme o braço de uma amiga e atravessa a rua devagar. “Passei a vida vendendo sonho dos outros”, diz. “Hoje estou vivendo o meu. Nem sabia que ele existia.”

Os mais jovens filmam, curiosos. Alguns perguntam, outros apenas acompanham. O cortejo segue, misturando purpurina e reparação possível. Não apaga as durezas, mas redesenha a lembrança.

A cada esquina, a cidade parece reconhecer um pedaço de si mesma que tentou esquecer. No fim, quando o samba diminui e o sol já pesa nos ombros, sobra aquele cansaço bom de quem foi visto. As veteranas se abraçam, ajeitam as coroas improvisadas, prometem voltar no ano seguinte.

Por algumas horas, foram patrimônio vivo. E o Rio, distraído de seus próprios preconceitos, aplaudiu.

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