Cabeça de idoso tem coisas engraçadas. Por vezes, me flagro sendo visitado – ou melhor, invadido – por antigas peças publicitárias de minha infância e juventude, em uma espécie de super recall.
Não raro, chegam propagandas anteriores à televisão, que nem sei se foram veiculadas pelo rádio. Lembro-me de lê-las, em bondes. O melhor exemplo é a do Rhum Creosotado (que, escrito Rhum, e não Rum, me parece ficar menos etílico e mais com gosto de remédio): “Veja, ilustre passageiro, o belo tipo faceiro que o senhor tem a seu lado. E, no entanto, acredite, quase morreu de bronquite, salvou-o o Rhum Creosotado”.
O bonde, diga-se, inspirou uma observação filosófica sobre o devir, que eu sempre repetia: “Tudo na vida é passageiro, menos o cobrador e o motorneiro”. Hoje, a tigrada nem sabe o que é motorneiro – o motorista do bonde, esclareço – e adapta o ditado aos tempos do ônibus, vociferando “Tudo na vida é passageiro, menos o cobrador e o condutor”. O que pode ser uma rima (bem chinfrim), mas não é uma solução.
Uma propaganda que eu adorava, já nos tempos da televisão, era da Esso. Desenho animado. Uma robusta cantora de ópera entoava: “Só Esso dá a seu carro o máximo”, quebrava isso em diferentes versos e se esguelava no final: “Veja o que Esso faaaz…”
Eu morria de rir, cúmplice, talvez por ter um avô amante de ópera e reconhecer, naquelas mal entoadas, um trecho da Canção do Toreador, da ópera Carmen.
Depois uma voz gritava, “Não, não é essa música!”, e a propaganda era repetida, sem pompa nem circunstância, ao som de um simpático sambinha.
Na grande maioria das peças publicitárias dos anos 1950 e 1960, as músicas eram de uma singeleza encantadora. Como exemplo, um trechinho da propaganda das lâmpadas GE: “Se a lâmpada apagar, não adianta reclamar, nem bater o pé”, tudo bem sincopado. Hoje, os botocudos nem sabem como bater o pé, se a lâmpada queimar vão logo xingando, com uma saraivada de palavrões cabeludos.
Nas décadas seguintes, a publicidade brasileira ganhou arranjos magníficos, conquistou prêmios no exterior, sofisticou-se na última. Um marco da virada é a “estrela brasileira num céu azul”, da Varig. Que gerou uma zoeira com a Transportes Aéreos Portugueses (TAP), cuja loja era anunciada como ficando ao lado daquela da… e lá vinha o grand finale brazuca, Varig, Varig, Varig! (A pobre TAP não ficava colada à Varig, mas a realidade nunca impediu uma boa gozação de se imortalizar.)
Outras propagandas, mais recentes, estão na memória de quase todos (os nascidos no atual milênio estão perdoados): a série da Bombril, a dos bichinhos/bebezinhos da Parmalat, as do Posto Ipiranga, tantas mais…
Eu poderia continuar, mas, na volúpia de prestar o depoimento, os exemplos escaparam-me da mente. Vão voltar, sei que vão, mas não a tempo de ser listados neste texto.
Memória de velho é uma lama.
