Notibras

Cadu Matos, o escritor-mor do Café Literário, faz balanço sobre seus contos

Sempre achei a galinha um bicho escandaloso, capaz de cacarejar adoidado para anunciar a vinda ao mundo de um simples ovo. Imaginem se a moda pega, sendo adotada pelas fêmeas em idade fértil da espécie humana: uma vez por mês, quando um óvulo não fecundado (não galado?) estivesse prestes a ser expelido, ia ser um auê, uma zoeira dos diabos. Com isso, a velha TPM ganharia uma nova dimensão, digamos, cacarejada.

Hoje, porém, apropriando-me de uma frase de Sérgio Moro dirigida aos ministros do STF (a diferença é que sou sincero; o marreco, não), apresento minhas sinceras escusas às galináceas. Há que comemorar, sim, a postura de mais um ovo. Similarmente, há que celebrar, sim, a escrita de mais um conto. Porque, nos dois casos, o mundo fica mais rico.

Meu primeiro texto foi publicado pelo Notibras em 15 de setembro de 2024. Seguiu-se uma saraivada de contos, afinal, originais não faltavam. Em 26 de setembro, numa entrevista a Cecília Baumann, declarei: “Já enviei 13 textos [à agência], escrevi 420 até hoje. Ou seja, tem muito bambu, vou disparar muitas flechas”.

Só que, cedo ou tarde, as flechas acabam.

Passada a lua de mel, a publicação de meus contos deixou de ser diária; continuou bem satisfatória, no mínimo dois textos por semana – mas comecei a me preocupar. Não ajudou o fato de praticamente todos os meus contos eróticos terem sido descartados. Achei um exagero, são tão divertidos e inocentezinhos, dignos representantes do gênero pornochanchada literária… É verdade que em alguns deles, uns poucos, a sacanagem mais escrachada corria solta. Um exemplo é o texto Ivo viu a vulva da vovó: cheio de humor, mas, com um título desses, não dá pra disfarçar, é que nem mancha de batom na cueca.

Então, bem ou mal, os eróticos foram barrados. Mas ainda me restavam muitas flechas, e o bambuzal continuava à disposição. Só que Ansioso é meu nome do meio, e postei nas minhas redes sociais o texto Curiosidades. Segue um trechinho:

“Alvíssaras! O Notibras vai publicar muitas centenas de contos meus. Até hoje, 14 de janeiro de 2025, foram aceitos 235 textos e publicados 86.

Hoje, porém, não saiu texto algum deste escriba. Nem ontem. Nenhum! O que o Notibras tá fazendo comigo? Eles prometeram publicar tudo ‘oportunamente’. O que isso significa? Um por semana, um por mês, um por ano? Como ensinou Cazuza, o tempo não para; como ensinou o Coelho Branco em Alice no País das Maravilhas, Ai, os meus bigodes, é tarde! Tão tarde até que arde! O ano já tá terminando, do dia 14 ao dia 365 é um pulo, e nada de meus contos aparecerem.”

Só que não precisava ter me preocupado, não por isso, pelo menos. Desde 14 de julho, Notibras desandou a publicar meus contos. Agradeci em O contista e a lombriga, publicado em 25 de julho, quando já haviam sido aceitos 324 textos pela agência e publicados 171:

“O período de 14 a 24 de julho foi glorioso: onze textos publicados em onze dias, um recorde. (…) Ao ser postado o sexto conto, admiti que ‘estava sendo tratado a pão-de-ló’. Ao aparecer o décimo texto, percebi que agora estava sendo tratado a tiramisu.”

Os contos continuaram a aparecer, um por dia, com a pontualidade de relógio. Eu, coelho hipnotizado no meio da estrada pelos faróis de um automóvel, acompanhava, fascinado, a sucessão de textos. Resultado, foi impossível repor, com os bambus à minha disposição, as flechas disparadas. Hoje, 24 de dezembro de 2025, constatei que disponho de apenas 29 para lançar!

A essa altura, lembrei de uma velha piada ouvida na adolescência. Um sujeito, famoso pela virilidade, aceitou se apresentar no Maracanã e dar 100 bimbadas seguidas. Com o estádio lotado, apesar do preço salgado do ingresso, ele mandou ver. Lindas mulheres se sucediam em sua cama, e ele, impávido colosso, traçava uma após a outra. O chabu veio com a 98ª parceira: a coisa estava que nem a pipa do vovô, não subia mais… A moçoila bem que tentou, apelou pra seus dotes orais, mas nada. E a tigrada, implacável, entoou em coro, com desprezo:

– Brocha! Brocha!

Espero, do fundo do coração, ser poupado de zombarias semelhantes. Mas é por isto que passei a valorizar a empreitada das galináceas: cada ovo merece comemoração, assim como cada conto merece aplausos. No mínimo, pelo esforço.

Agora, vou dar uma ciscadinha no terreiro, se possível descolar umas minhocas. Ainda não cheguei ao ponto de cacarejar. Mas falta pouco.

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Cadu Matos é o escritor-mor do Café Literário, não apenas pela quantidade, como também pelo alto nível dos seus textos. 

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