O Retirante é alguém retirado de seu lugar, por condições que o obrigam a sair andando. Há sempre um novo lugar onde as coisas podem ser melhores, diria não melhores, mas talvez, menos ruins. Para algumas pessoas a vida não melhora, a miséria é tanta que diminui-la já é um avanço, e foi nesse cenário a construção do Brasil, país cheio de contradições e de pessoas retiradas, retirantes em busca de retiro. Podemos olhar para os dias atuais e ver tantos retirados dormindo nas ruas, podemos voltar um pouco no tempo e ver os retirados se organizando em paralelo ao estado, voltando mais ainda os indígenas retirados para o avanço da coroa, do império e da república, há sempre um grupo que se beneficiou em todas essas etapas. Nossa história brasileira é feita dos retirantes, é feita do povo que em cada processo de transição foi esmagado pelo estado, um estado sabedor das maldades que praticou, um estado mantenedor de privilégios aos seus preferidos, uma meia dúzia muito poderosa.
O Brasil tem em sua história um ódio ao seu próprio povo, não o Brasil país, mas sim quem construiu essa ideia de Brasil, quem o nomeou e o governou, sempre com mão de ferro, para nunca perder o controle. Somos pioneiros na maldade contra os vulneráveis, temos uma burguesia devastadora na articulação contra o povo, somos filhos de uma pátria fundada na exploração e aniquilação dos que tinham a terra por direito, isso na monarquia, no império e na república. Todos os falsos progressos, com falsas promessas, uma falsa ideia de estado, uma falsa ideia de paz.
De Norte a Sul nunca houve paz, nunca houve democracia e nunca houve direito garantido, o que há são períodos de calmaria para acalmar o povo seguido de momentos conflitivos para tirar do povo o pouco que lhe resta, sempre na ideia de garantir capital aos capitalistas, esses são os mantenedores das estruturas e sem eles nada existe, uma balela tão mentirosa, um estado tão cara de pau de fazer esse tipo de propaganda e um povo tão sofrido sangrando para segurar essa estrutura.
Há um pioneirismo opressor nesse país, uma herança colonial da mais pura maldade, uma forma de colocar um como superior ao outro, tendo direito de desumanizar alguns. Fruto de uma colonização violenta, violentadora, violadora, que entrou e se apropriou, usando das ferramentas mais sujas para dizimar e conquistar. Quem não se curva não pode existir, os que se curvam tem o direito de viver, mas não é vida em liberdade, é vida para exploração. Antes do Nazismo, aqui já existia campo de concentração, havia o conceito de Deus único e verdadeiro e um povo escolhido, povo esse que podia exterminar as almas pecadoras e sem valor. Valores Cristão que nem mesmo Cristo poderia imaginar, tudo se explica pela necessidade de ficar mais rico, ter mais poder, ideias que julgamos tão absurdas, fizeram e fazem parte da nossa história.
Tudo isso é motivo para retirar, com vida ou sem vida, saiam todos, o rei está mandando, o imperador ordena, é direito do presidente da república, vamos vender o rio, vamos plantar nessa terra, vamos transitar com caminhões por aqui, progresso acima de tudo, Deus acima de todos. Quem dirige essa ferramenta de opressão escolhe quem oprimir, todos trabalham para essa máquina funcionar, o estado é aliado de quem precisa expandir seu poder. Agora tudo tem um dono, antes o que era comunal agora é privado, assim é o progresso.
O retirante se retira de uma cena para outra, pelo caminho assiste tudo acontecendo, tudo mudando ao seu redor, não há mais espaço para viver, encaixotado precisa sair, se retirar, não se adapta mais, nem tem como, não o querem mais por aqui, agora é assim poucos tem muito e muitos tem pouco. Como se fosse um ciclo natural, como se o ser humano tivesse que se adaptar ao que não escolheu, uma maioria se tornando submissa a uma minoria, e pensa numa minoria pequena em número e imensa em poder. Fazem as regras por isso sempre ganham o jogo, uma loteria com ganhador certo. A sorte sempre os procura, manipulam o mundo e brincam como brinca uma criança com seus personagens.
Essa história é para lembrar de onde vem nosso retirante, o que lhe influenciou, o que carrega consigo, nos bolsos, na mala, na mente e no coração. Suas raivas, frustrações e sorrisos, suas falas, gritos e risadas. Tudo é fruto da origem, antes mesmo dele existir, carrega uma herança de ser sofredor, de trabalhar muito e não possuir nada. De sonhar com uma vida pós morte para ver se na próxima pode melhorar, ou até se uma vida no céu poderia ser real, quer acreditar que há uma força maior que está o acompanhando. Só isso lhe resta mesmo, desejar, se retirar é um pouco isso, desejar algo em um outro lugar, não é desejo com luxo, sim desejo de viver a vida.
