Notibras

Cara de anjo, juízo de passarinho

Além de ingênuo, Laurindo era um tanto distraído, combinação que muitas vezes o colocava em enrascadas. Pior é que, não raro, acabava envolvendo outras pessoas, o que provocava onda de olhares furiosos direcionados àquele rosto quase angelical, cuja penugem no buço não combinava com seus quase 30 anos. No entanto, se lhe faltassem pelos na cara, sobrava-lhe vergonha.

Ainda no tempo de molecote, sua avó lhe pediu para colocar o resto do almoço misturado com o angu para o Barão, o enorme vira-lata azulado que, quase sempre, era mantido na corrente no quintal. É que, segundo a parenta soubera por algum antepassado, cachorro de guarda fica preso de dia para ser solto à noite. O problema é que o Barão parecia mais interessado nas galinhas do que nos ladrões.

Pois bem, lá estava o Laurindo carregando o prato do cachorro em uma mão, pão com linguiça na outra. Na hora de servir o Barão, eis que o garoto, antes de se atinar da situação, quase teve a mão arrancada pelo intrépido cachorro. Lá se foi a iguaria do menino que, esfomeado que estava, levou um tempo até perceber que já havia devorado boa parte do que era para o seu algoz. Não morreu, é verdade, mas percebeu que vida de cachorro não devia ser coisa muito boa.

Na adolescência, o garoto, com os hormônios à flor da pele, foi atacado por um sincericídio.

— Laurindo, tu pode entregar essa vasilha na casa da dona Almerinda.

— Posso sim, mamãe. Tô até precisando falar algo sério com ela.

— Com a dona Almerinda?

— Sim.

— E o que seria?

— É que quero namorar a Marcinha.

— A filha da dona Almerinda?

— Sim.

E lá foi o Laurindo conversar com a mãe de sua futura namorada. Entretanto, o rapazola parecia carregado demais de verdades.

— Dona Almerinda, boa tarde. A minha mãe me pediu para lhe devolver essa vasilha.

— Muito obrigado, Laurindo. Você é muito gentil.

— Já que a senhora acha isso, resolvi lhe pedir uma coisa.

— Pois diga.

— Quero namorar a sua filha.

— O quê?

— Isso. Quero namorar a Marcinha, mas tem um problema.

— E qual seria?

— É que ela anda pelos cantos aos beijos e amassos com o Robertinho.

— O quê?

— Sim. E eu queria que a senhora falasse pra ela parar com isso, pois não fica bem, né?

— O quê?

Pelo visto, o namoro entre Laurindo e a Marcinha não rolou. Pior mesmo foi a bronca que a garota tomou da dona Almerinda, que a proibiu de namorar o Robertinho e qualquer outro pretendente até que ela completasse 30 anos.

Já na fase adulta, o sem filtro se meteu em imbróglios tão evitáveis, que quem os presenciou não teve outra atitude a ficar boquiaberto. Um deles, talvez o mais constrangedor, foi o do dia em que Laurindo e dois colegas de trabalho, o Juvenal e o Zé Carlos, saíram para almoçar, como faziam costumeiramente. E tudo parecia tão corriqueiro, que até as refeições eram as mesmas: arroz, feijão, farofa, bife acebolado e um tiquinho de salada para enganar o colesterol.

Após o almoço, os três homens, enquanto caminhavam de volta para o serviço, se depararam com três conhecidas, cujos ânimos se mostraram congruentes de intenções. Desse modo, em vez de marcarem algo para mais tarde, eis que os agora três pares resolveram pegar a próxima sessão de cinema, que estava para começar.

Quase duas horas após, já na saída da sala de exibição, os enamorados se despediram das moçoilas com beijos apaixonados. Promessas de novos encontros feitas e, então, lá foram os três irresponsáveis a passos largos em direção à repartição. Mal chegaram, eis que o chefe os interpelou.

— Ei, onde vocês estavam? Perderam a hora?

— Bem, seu Gouveia, aconteceu uma coisa inesperada. Tão inesperada, que nem deu tempo de avisar pro senhor.

— E o que foi, Juvenal?

Bem, antes do funcionário continuar com a mentira, provavelmente já devidamente arquitetada para livrar a cara dos três, eis que o Laurindo, incauto como ele só, disparou:

— Seu Gouveia, o senhor acredita que encontramos três lindas garotas e fomos ver um filme? E logo eu, que não namoro há tempos, recebi dois beijos hoje, e um foi na boca. Que sorte, né?!

O chefe e os colegas do Laurindo, incrédulos, se entreolharam até que, do nada, o Gouveia começou a gargalhar.

— Mas tu é um brincalhão mesmo, hein, Laurindo! E olha que eu quase acreditei. Agora vão trabalhar, que tem muita coisa que deixei na mesa de vocês.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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