Carlos Frederico detestava nomes duplos. Especialmente o seu.
Era um nome forte, altissonante, reconhecia, nomes duplos geralmente o são. E ele era um cara de esquerda, assim como seus pais, que, ao batizá-lo assim, pretendiam homenagear Karl Marx e Friedrich Engels, autores do Manifesto Comunista. Ele também reverenciava os dois líderes revolucionários, mas, ao contrário dos progenitores, era obrigado a conviver com um nome demasiado extenso. Na cama, por exemplo, ficava difícil alguém dizer, “Carlos Frederico, vem com tudo!” Aí o jeito era apelar pro “mozão” ou pro “amore”, termos que ele achava ridículos, piores que qualquer nome duplo.
E os apelidos, ou melhor, a falta de definição dos! Ele morria de inveja de um Carlos Henrique, sempre chamado de Caíque, ou de um Carlos Eduardo, vulgo Cadu. Já no seu caso, alguns parças o chamavam de Fred (ele até que gostava), outros de Cade (ele exigia a pronúncia Cáde, do contrário ficaria eternamente procurando alguma coisa indefinida), de Cari, ou mesmo (argh) de Caco. Houve até um botocudo que tentou chamá-lo de Cafrê, mas aí foi demais: o quase apelidado ameaçou cobri-lo de porrada e em seguida cortar a amizade se ele repetisse tamanha barbaridade.
Certa madrugada, Carlos Frederico voltava a pé para casa quando, numa encruzilhada, avistou um vulto. Na verdade, uma nuvem escura, sem contornos definidos, que aos poucos foi ganhando forma: dois chifres, olhos de fogo, feições grotescas, apavorantes, um corpo nu coberto de pelos e um rabo – a representação de um demônio que conhecia desde a infância, nascido em uma família católica (quem disse que catolicismo e socialismo são inconciliáveis?).
– Boa noite, Carlos Frederico – disse a aparição. – Na verdade, má noite pra ti – e abriu um sorriso pavoroso, mostrando presas amareladas.
O humano continuou em silêncio, assustado demais para falar.
– Meu nome é Asmodeu – prosseguiu o diabão. – Talvez já tenhas ouvido falar de mim… – e deu outro sorriso horrível.
Carlos Frederico/Cáde/Cari/Caco permaneceu em silêncio.
– Vou propor algumas adivinhações. Se acertares, escapas com vida. Se errares, levo-te para o inferno comigo! A primeira é, qual o significado do meu nome?
Leitor onívoro, o ameaçado vasculhou em seu lixo cultural e sapecou:
– Ó poderoso, vosso nome deriva de uma língua morta indo-europeia na qual foi escrito o Zend Avesta, texto sagrado do zoroastrismo persa. É formado pela união dos termos Aesma, que significa ira, e Daeva, demônio. Sois, desse modo, o demônio da ira, mas também da luxúria e do ciúme.
– Porra, não é que o filhodeumaegua acertou!? – espantou-se a entidade infernal. – A segunda adivinhação é bem mais fácil. Aesma-daeva é um nome duplo, e Asmodeu também; qual a divisão desse nome? – e, diante da indecisão do vivente, insistiu:
– Vamos, querido. Acertaste a adivinhação que leva a esmagadora maioria para o inferno, vais te sair bem nessa!
Tranquilizado pelo “querido”, e identificando um jeito de corpo e um olhar bem conhecidos na entidade, Carlos Frederico não hesitou:
– Asmo e deu. Deu e fez bem. Deu o que era teu, ou emprestou, tanto faz; o importante é ser feliz.
Asmodeu o fitou em silêncio, com uma surpresa deliciada. Depois perguntou:
– És do babado?
– Sou sim – admitiu o não hétero. – E tu?
Se o demônio se ofendesse com o uso da segunda pessoa do singular e, mais ainda, com a insinuação de homossexualidade, Carlos Frederico estava
lascado. Mas a aparição bateu as pálpebras, num esgar pavoroso, que se pretendia sedutor, e respondeu:
– Eu também, coleguinha. Mas viro a banda quando sinto vontade, ser demônio da luxúria tem suas vantagens… E agora tchau, vou procurar outro macho, já que escapaste!
E se desmaterializou no mesmo instante.
