Na mitologia grega, poucas figuras representam de forma tão pungente o drama do futuro quanto Cassandra, princesa de Troia. Filha do rei Príamo e da rainha Hécuba, ela recebeu dos deuses um dom extraordinário: a capacidade de ver o que ainda não aconteceu. Mas esse presente veio acompanhado de uma maldição cruel — ninguém jamais acreditaria em suas profecias.
Segundo a tradição mítica, Cassandra foi cortejada por Apolo, deus da luz, da razão e da profecia. Em troca de seu amor, ele concedeu à jovem o poder de prever o futuro. Quando Cassandra recusou consumar a promessa, Apolo, incapaz de retirar o dom concedido, condenou-a ao descrédito eterno. Assim nasceu a mais trágica das profetisas: aquela que vê com clareza, mas fala no vazio.
Cassandra antecipou a queda de Troia, alertou sobre o engano do cavalo de madeira, previu a morte de Agamenon e o próprio destino de escravidão e violência que a aguardava. Em todos os episódios, suas palavras foram tratadas como delírio, exagero ou histeria. O futuro estava diante dos olhos dos troianos, mas ninguém ousou escutá-lo.
O mito de Cassandra revela uma dimensão profunda da relação humana com o futuro. Saber o que virá não significa ter poder sobre os acontecimentos. Ao contrário: pode significar impotência, solidão e sofrimento. O futuro, quando anunciado sem a chancela da autoridade ou do consenso, torna-se incômodo, ameaça a ordem estabelecida e, por isso, é rejeitado.
Há também uma leitura simbólica: Cassandra encarna a verdade que não quer ser ouvida. Seu dom desafia a arrogância dos homens e a falsa sensação de controle. A tragédia não está apenas na destruição de Troia, mas na recusa coletiva de enxergar o inevitável. O futuro, no mito, não é algo distante — ele já se anuncia, mas é ignorado.
Por isso, Cassandra atravessa os séculos como arquétipo. Ela surge sempre que alguém alerta sobre catástrofes iminentes, crises morais, guerras ou colapsos sociais e é tratado como exagerado, pessimista ou inconveniente. Seu drama é eterno: ver antes, falar antes e ser desacreditada até que seja tarde demais.
Na mitologia grega, o futuro não é um espaço de esperança ingênua, mas um território de tensão entre destino e liberdade. Cassandra nos lembra que prever não é salvar, e que o maior castigo não é errar sobre o amanhã, mas estar certo e não ser ouvido.
Assim, o mito permanece atual. Sempre que o futuro bate à porta e é ignorado, Cassandra volta a falar — e, mais uma vez, ninguém acredita.
