Oficialmente, o carnaval começa só no sábado. Mas o Brasil não espera calendário. O povo já tomou as ruas, já vestiu fantasia, já ensaiou o passo, já transformou esquina em palco e avenida em celebração. Porque o carnaval não é data. É estado de espírito.
O carnaval é expressão cultural do povo brasileiro. É parte indissociável da nossa identidade. Está no batuque que ecoa nos morros do Rio de Janeiro, nos trios elétricos que arrastam multidões em Salvador, nos bonecos gigantes que desfilam pelas ladeiras de Olinda, nos blocos que ocupam as ruas de Belo Horizonte e nas marchinhas que ainda resistem em tantas cidades do interior. Cada região celebra à sua maneira. Cada povo imprime sua marca. Mas a essência é a mesma: alegria coletiva, pertencimento, catarse social.
Por isso, é preciso desconfiar de governantes que torcem o nariz para manifestações populares tão profundamente enraizadas na cultura nacional. O carnaval movimenta economia, gera milhares de empregos temporários, fortalece o turismo e, sobretudo, reafirma nossa capacidade de celebrar juntos, apesar das dificuldades. Apoiar o carnaval é reconhecer o valor da cultura como política pública.
Há quem argumente que, nesse período, aumentam os índices de violência e acidentes. É verdade que grandes aglomerações exigem planejamento. Mas justamente por isso a responsabilidade do poder público é ainda maior. Segurança, transporte, fiscalização, campanhas educativas, estrutura de saúde: nada disso pode ser improvisado. Tragédias evitáveis em momentos festivos revelam falhas de gestão, não defeitos da festa.
Prefeitos e governadores têm uma responsabilidade adicional durante o carnaval. Preparo não é luxo, é dever. Quando o Estado se antecipa, organiza e protege, a festa acontece com mais segurança e menos riscos. Quando se omite, transfere para a população o custo da própria negligência.
O carnaval é do povo e o povo sempre encontra um jeito de celebrar. Mas cabe aos governantes compreender que cultura popular não é problema a ser tolerado: é patrimônio a ser cuidado. E cuidado exige planejamento, investimento e respeito.
