“[…] a próxima? Qual é a próxima? – pergunta a jovem Niko ao tio Hirayama.
“É a próxima, Niko. O que importa é AGORA, AGORA!” – responde o tio e os dois seguem singrando suas bicicletas pelo final de tarde sobre um viaduto de Tóquio.
CENA 1
Na noite anterior Zéca chorou assistindo a Netflix.
Viu e reviu um filme capaz de transformar a sua vida para sempre.
O Filme tocou fundo a sua restante alma: “Dias Perfeitos”, do diretor alemão Win Wenders.
Na fita, um homem limpa banheiros públicos nas ruas de Tóquio e repete a sua rotina todos os dias.
A narrativa é lenta, planos sequência.
E tira fotos analógicas do balançar das folhas das árvores em contraste com a luz do Sol.
Observa as pessoas em seus ritmos cotidianos.
E tudo parece ordinário, meio banal.
Nos finais de semana leva a roupa para lavar.
Anda de bicicleta e tira fotos.
Depois, na pequena casa em que vive, escolhe umas e rasga outras.
Tempos e cenas perfeitas.
Instantes que marcam a vida do homem – e as nossas.
Tóquio é uma cidade híbrida.
O passado e o futuro habitam ali.
Para o sr. Hirayama o que há é o habita o presente, o agora.
CENA 2
A trilha sonora do filme é especial. Canções dos 70, 80 ouvidas na Van todas as manhãs enquanto segue para a limpeza detalhada dos banheiros públicos de Tóquio.
Pat Smith, Lou Red, canções quase despercebidas lá dos anos 70 e 80, mas que marcam um tempo exato no aqui e agora.
Todos os dias, o acordar após os sonhos com o mesmo tema de luz e sombra no balançar das folhas das árvores. Escovar os dentes e aparar o pequeno bigode mecanicamente. Olhar as árvores; pegar um café na máquina na garagem e encarar os banheiros.
CENA 3
O filme segue e a vida pessoal do sr. Hirayama vai surgindo.
De fato, ao cabo e profundo: o filme termina sem nenhuma conclusão aparente. Apenas a música de Pat Smith e um plano média através do para-brisa que vai fechando no rosto do sr. Hirayama sorrindo enquanto dirige o seu furgão de volta para a pequena após mais um dia.
CENA 4
Zeca agora caminha pela praia entre o mar e o rio da Madre. Entra num Boteca nativo de pescadores. Bebe o mesmo drink de sempre, gin tônica. A cena marcante do filme de Wender não lhe sai da cabeça: a garçonete amiga – vestindo um quimono tradicional – atende ao pedido de um anônimo freguês na mesa ao fundo já meio cheio de saquê e canta triste e solenemente “A Casa do Sol Nascente”, em japonês. O sr. Hirayama apenas observa e sorri levemente.
Zeca bebe o “rabo de galo e a cerveja gordinha” como se fosse o mesmo ritual.
Já noite, Zeca segue à pé pela velha estrada d Guarda do Embaú e dorme o sono dos deuses.
Na manhã seguinte ele acordou, escovou os dentes, aparou o pequeno bigode e seguiu para outra dia de andanças e observações. Lembrou-se do momento do filme em que o “tio” com a sobrinha adolescente, Niko, seguem brincando e cantando sobre suas bicicletas:
“A próxima… A próxima… Agora… Agora”
E foi então que Zeca entendeu:
“Somos todos o sr. Hirayama”
…………………
*Foto de Tasso Scherer – Florianópolis SC.
**Ver resenha crítica do filme: Dias perfeitos – o peso do ordinário e a poética do banal.
Dias perfeitos – o peso do ordinário.
*** Gilberto Motta é escritor, jornalista, professor/pesquisador que ama o cinema de cenas perfeitas, sons infinitos, mas não fala nada de japonês. Vive na Guarda do Embaú, pequena vila de pescadores e turistas no litoral Sul de SC.
