Bebeu o seu chá verde logo pela manhã.
Olhou a janela que se precipitava por treze andares que desciam directamente para a ruas de alcatrão onde passavam sonâmbulos os automóveis e as pessoas a caminho do trabalho.
O aroma do chá verde subia-lhe nas narinas abertas e era como se sorvesse uma selva indiana plena de calma e de exotismo onírico em verde puro, com folhas de clorofila abrindo-se, e algumas mulheres com colares e brincos de oiro fino dançavam e cantavam atirando flores brancas ao rio e isto sumindo-se.
O aroma do chá verde subiu-lhe à cabeça e sentiu-se boiar numa placidez de água aquietada. O seu olhar desviou-se da janela.
Percorreu descalço a cozinha como um franciscano, atravessou o corredor com fotografias de gente conhecida nas paredes, pareciam ter vida dentro naqueles olhares, eram como uma família amistosa, as caras e as fisionomias, sem nome dentro, mas vivas, como imagens moventes e nítidas que se percorriam pelos labirintos da sua memória.
Entrou na sala de jantar com a xícara de chá verde ainda fumegando, bebeu mais um suave trago quente e ligou a televisão.
Era a hora do noticiário televisivo matinal.
Sentou-se no sofá de pele escura e ali ficou a ver, passivamente enquanto bebia o chá verde que fumegava, o espectáculo para aquele dia desfilando como uma sucessão de pequenos entretenimentos com imagens deliberadamente usadas para captar a impressão, a hipnotizada atenção dele, de chá verde na mão fumegando, vendo desfilar na televisão desgraça atrás de desgraça, como uma velha vestida de negro desfiando as contas de um rosário diário, rezando de cor, contando horrores atrás de horrores, de olhos vidrados de medo e num pasmo histérico e crédulo, anestesiada e anestesiando, isto tudo como se nada passasse e o chá verde fumegando.
E ele bebia o chá verde que fumegava vagarosamente, bebia e bebia repetidamente, lentamente entrando num torpor que lhe induziam as palavras choque, como passes magnéticos cortantes, da apresentadora treinada para vociferar por entre pausas e dicções impactantes, campos semânticos de palavras como horror, desgraça, tragédia, mortos, drama, entrecortada com imagens de choros, olhos desanimados e caídos, guerras e episódios sórdidos de homicídios, índices bolsistas com gráficos subindo e descendo conforme os aplausos e as vaias do último espectáculo de massas que eufóricas gritavam hinos a favor da revolução ou contra a revolução, gente pedindo de cerveja na mão mais uma canção, mais uma canção, e alguns sem abrigo viviam nas ruas e não falavam, não havia excitação se não houvesse câmera na mão, e haviam muitas caras que nunca passavam na televisão mas que concordavam com a serena submissão, e as imagens apenas passavam, passavam apressadas num turbilhão.
Ele desligou o som demasiado barulhento da televisão e das imagens em delírios de fascinação e encenação e, bebendo o seu chá verde fumegante, de chávena na mão, sentiu-se levemente irritado por aquela horda enxameante que entrava na sua casa por aquele ecrã, como que atirando lixo para a sua sala de jantar para depois berrar e berrar e vender em anúncios de cortar a respiração subliminares produtos que subitamente passava a desejar ardentemente como se nunca mais houvesse mais nada no mundo a não ser um carro potente, um perfume sedutor, um whisky que desinibe, uma mulher que se despe grátis para mostrar a profundidade de uma máquina de lavar alemã.
E tudo isto num pequeno pedaço de tempo da manhã, enquanto bebe o seu chá verde fumegante, sentado no seu sofá de pele negro, confortavelmente desempregado a ver o mundo a passar naquela caixa que, de tanto barulho fazer, de trazer para a sua sala de jantar todo o inferno a arder, decide então fazer uma acção cívica, pega no comando e desliga a televisão…
E um profundo som de silêncio acalma-o enfim.
O seu coração fica pacífico outra vez vendo a água do chá verde na xícara a estabilizar, a ficar parada, num pequeno gole bebe tudo e acaba-se a fumegante ilusão daquela manhã calada.
Abre a porta de casa, desce as escadas em espiral e vai de automóvel ver o mestre que mora lá do outro lado da montanha a doze milhas dali.
Pela auto-estrada a caminho das montanhas brilha-lhe os olhos de ser único, saíram-lhe da mente as teias de aranha.
Procura apenas o presente e não uma sugestão estranha quer seja do passado ou do futuro, tudo era o agora saindo suavemente do escuro.
E o automóvel passa a grande velocidade na estrada saindo da neblina entorpecedora da cidade, e vai rumo à montanha, sem bem me lembro, pelo que posso precisar vendo agora o automóvel a passar, a montanha, enorme, no alto, a montanha chamava-se Liberdade e ficava fora da cidade após o deserto dos uivos e das visões dúbias.
E foi lá que perdeu o nome e ganhou um novo emprego sob o olhar silencioso do mestre que lhe dizia em palavras que só o coração ouvia.
E ele passou a ser…
Ser criança entre os lobos e as bruxas que dançavam ao seu redor, passou a ser um mafarrico de olhos mansos e doces que apenas existe e trabalha por amor…
De novo encheu a tigela e bebeu o seu chá verde logo pela manhã.
O gongo soou brônzeo estendendo-se o som vibrante nos seus tímpanos e por todo o templo. Fim da meditação.
