Confessei certa vez que gosto de ligar meus contos a velhas piadas de moleques e/ou adolescentes. O melhor exemplo é O contista e a lombriga, mas há outros, também publicados por Notibras, entre eles Vernissage e Amor na savana (por falar nisso, notibrenses, quando vocês vão publicar A sacerdotisa, clássico do gênero?).
Infelizmente, algumas piadas não podem ser desdobradas em contos: ficariam mais cabeludos que o peito do Tony Ramos. Apresento o final de algumas delas. É uma pena, o desfecho surpreenderia o leitor, requisito de um bom conto.
– Acontece que uma freira de hábito levantado corre muito mais que um tarado de calça abaixada.
Ou então a obra-prima de humor de 6ª série, Nhonhoco:
– Senhorita, conhece Nhonhoco?
– Conheço sim, e se botar pra fora, chamo a polícia.
Mas hoje, aleluia, bolei um jeito de brincar com a piada do macaco. Não o da selva, o do carro.
A anedota é bem conhecida. Um homem vai trocar um pneu furado e descobre que o carro não tem macaco. Enquanto caminha uns 5 km, sob um sol escaldante, até uma cidadezinha onde deve haver um borracheiro, solta a imaginação e os cachorros:
“Ele vai alugar por uns 500 reais. Caríssimo mas eu pago, ele tem macaco, eu não tenho macaco… Não, o filho de uma égua vai cobrar 1000 reais. Eu pago, que jeito, ele tem macaco, eu não tenho macaco…”
Quando, afinal, entra na borracharia, ele explode:
– Ladrão! Cobrar 2000 reais pelo aluguel de um macaco! Enfia ele onde o sol não bate!!!
Agora, o conto.
Estou com o eu dividido em relação ao Café Literário de Notibras. De um lado, sou chamado de “escritor-mor”. De outro, de “controverso”. Resultado, quebrou o maior pau entre meus lados ansioso e confiante. Foi mais ou menos assim:
– Cê viu, Confi (apelido do eu confiante, seguro)? – Somos o controverso.
– Sai dessa vida, Ansi (apelido do eu ansioso). – Cê mesmo escreveu que era tratado a pão-de-ló. E a tiramisu.
– Ah, mas isso foi antes. Eles publicaram, sim, alguns continhos nossos. Mas os contos tão acabando, como ser escritor-mor sem publicar?
– Menos, cara! Notibras publicou, até hoje, 332 contos nossos. Tá bom, né não?
– E os qualificativos? A Luzia Couto é “incomparável”, o Gilberto Motta é “genial”, Cadu Matos é “controverso”. Quer dizer, nossos textos provocam polêmica, discussão. Tem quem goste, tem quem não goste.
Confi tratou de apaziguar a fera.
– Não é sempre assim? A gente conta com leitores ilustres, que nos cobrem de elogios. O Eduardo Martínez, por exemplo, chamou Cadu Matos de maior expoente do realismo mágico nas letras brasileiras. E não apenas pela quantidade de textos, pela qualidade também.
– Sei não, Confi… – e confessou. – Sabe, estou pensando em sair do Café Literário. Antes que os contos acabem, e o escritor-mor esvazie como um pneu furado. Só não saio porque eles têm a máquina pra divulgar nossos contos em larga escala, e não temos essa máquina, não temos como fazer isso.
Confi deu uma risada.
– O pneu furou, tá esvaziando… Eles têm a máquina, a gente não tem… Ansi, tá ficando igualzinho à velha piada do macaco, lembra? Cuidado, não brigue com Notibras sem motivo, não mande a equipe editorial enfiar nossos contos no fiofó.
Ao ouvir essas palavras e lembrar da historinha, Ansi começou a rir. E, como assinalou em O contista e a lombriga, o riso faz a ansiedade ir murchando como um pneu furado.
Então, companheiros notibrenses, tudo na santa paz, continuamos (Ansi, Confi e vocês) viajando em céu de brigadeiro. Mas que os contos estão acabando, estão mesmo.
