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Choro de bebê encerra tensão na casa da floresta

Antônio estava recostado na rede, na varanda da grande casa plantada no meio da floresta, num remoto ponto da Serra da Mantiqueira. Dali à vila mais próxima eram 2 horas, no mínimo, em lombo de burro, porque carroças não venciam os íngremes caminhos do local.

Acendeu o cachimbo de espuma do mar e deu uma baforada, levando os olhos, perdidos em seus pensamentos, a apreciar a mata fechada que inebriava o ar em volta com seu cheiro denso de umidade. O ar era pesado. Do fundo ecoavam os sons de pássaros vespertinos vindo tomar seus lugares para passarem a noite que já se aproximava, prestes a engolir tudo com sua enorme garganta escura e silenciosa, no mistério apenas eventualmente interrompido pelo ruído de aves noturnas e de insetos em busca de seus pares.

A tez de Antônio estava escurecida pela dura faina naquelas solidões. Começara a vida como mestre-escola na corte, até Sua Majestade nomear-lhe inspetor de ensino para o estado contíguo. Mais tarde, jubilou-se do ofício pedagógico e, com sua patente de capitão da guarda, foi chamado ao gabinete do Ministro, que muito lhe honrava com o convite para assumir a função de coordenar a instalação das linhas telegráficas entre o Rio de Janeiro e o sul de Minas Gerais.

Iria chefiar engenheiros, práticos, operários, carregadores e demais homens que, em verdadeira expedição pelo âmago da indecifrável floresta, iam lançar-se à dura tarefa de vencer encostas, morros, riachos, picadas sinuosas e escuríssimas noites sem fim, para achar o melhor caminho para o fio de arame que, transportando pulsos elétricos, enviaria e receberia de todo lado informações, integrando definitivamente aquelas remotas paragens ao mundo.

“Vossa mercê, capitão, terá ao dispor uma casa, na Fazenda da Grota, para instalar-se bem, junto com vossa família”, dizia o Ministro quando formulou o convite.

Com arrojo e coragem, Antônio assumiu a missão e partiu com sua mulher, filhos e agregados. Nos períodos em que se encontrava em serviço, seu irmão mais novo, Luciano, ainda solteiro, cuidava de todos da casa. A cada duas semanas, aproximadamente, Antônio regressava e, não raro, encontrava à sua espera planos de trabalho mandados da corte por mensageiro especialmente designado, os quais estudava e discutia entre os encarregados do serviço que também pousavam uns dias na Grota.

E essa rotina repetiu-se por semanas, porque estavam no trecho mais difícil e alto da serra. Cada metro de fio telegráfico era preparado e devidamente instalado nos espaços que eram vencidos de pesados galhos que, por vezes, precisavam ser removidos, de modo que as ventanias e chuvas, bem como o crescimento das próprias árvores, não viessem inutilizar o trabalho tão duramente executado.

O ambiente na varanda da casa, rematada por colunatas que sustentavam o beiral de antigo telhado, era todo de tensão e expectativa, enquanto o interior do imóvel estava mergulhado em silêncio, como se protegendo de algum perigo ou em preparação para um acontecimento. Era apenas no exterior da casa que se notava maior ruído. Os pássaros, o passar do vento por entre as folhas, algum murmúrio de Luciano, discretamente chegado perto da rede, para seu irmão:

“Mano, esteja calmo. Tudo dará certo. De manhã não haverá mais preocupações, tenho fé.”

Antônio dirigiu seus olhos quase cansados para Luciano, cheios de afeto e gratidão. A tarefa que lhe confiara o Imperador só era possível porque podia contar com ele para proteger sua família enquanto estava fora. Tudo era imprevisível naquela vastidão, naquele vazio.

Até as estrelas do céu mal se viam por entre os fantásticos desenhos que as altas copas dos imensos vegetais traçavam na tela da noite quando a lua cheia estava alta no céu.

Caiu a noite cerrada e profunda. Os ruídos do entorno mudaram, como era de se esperar. Antônio fora no interior da casa rapidamente e pegara uma lâmpada que, tendo acendido, pendurou num pequeno gancho próximo à janela esquerda. E recostou-se novamente na rede.

Quem ali o visse pensaria que era quase um animal enjaulado. Ainda que não fosse homem de se abalar, notava-se em suas feições a dureza de uma tensão por ocorrência iminente sobre a qual ele não podia exercer qualquer controle efetivo. As mãos às vezes estavam crispadas. Ele não podia dormir, embora o houvesse recomendado ao irmão. Este também recusara, e dissera que ficaria do seu lado até o amanhecer se necessário fosse.

Homem de ação que era, Antônio não abandonara sua fé. Era uma fé algo particular, e muita diferença fazia a pequena medalha de seu santo padroeiro pendurada a discreto cordãozinho de ouro que sempre trazia no pescoço. Pegou a medalhinha do santo e fez, mentalmente, uma oração.

“Livra-nos de qualquer mal, Santo Antônio. Proteja-nos”, murmurava discretamente entre os lábios o valente homem.

Devia ser perto da meia-noite quando se animou a trocar algumas palavras com Luciano, mas eram sempre rápidas, lacônicas e quase sussurradas com sua voz gutural e grave.

Abasteceu outro vez o cachimbo, passou a mão pelos bigodes, coçou o alto da cabeça e permaneceu ali. Em meio à fala ancestral da mata e da vida que dela emanava.

Tudo era noite, uma noite funda e lenta. A Antônio cabia esperar. O tempo se arrastava e ele se perguntou mentalmente:

“Quantas horas mais teremos de passar assim?”

Quem já virou noites em claro bem sabe que as horas da madrugada custam mesmo a avançar. A certa altura, tudo parece congelar na expectativa da alba, quando o cenário celestial vai se transmutando do negro infinito para o tom mais escuro de azul e, dali, até um azul acinzentado que, aos poucos, vai recepcionando as primeiras claridades do dia até que se torna puramente azul. O azul celestial que anima os dias plenos e insufla de vida e esperança tudo ao seu redor, sinal de que mais uma noite foi heroicamente vencida.

Mas ainda parecia distante aquela hora. Antônio não fechava os olhos. Luciano não arredava o pé de perto de seu irmão mais velho. E ali permaneceram em fraternal solidariedade.

Como pouco se via o céu do local em que estavam, não perceberam a formação de nuvens sobre a Grota. Mas elas se formaram e, pesadas, desabaram na madrugada sob a forma de forte chuva, que acrescentou mais um instrumento à melodia que se executava em volta deles. Logo havia goteiras pelo telhado da varanda. Uma estava bem próxima da rede, mas sequer abalou Antônio.

A chuva foi bem forte por uma hora e dois quartos, houve trovões reverberados pelas montanhas em volta, depois começou a ficar mais amena e constante até quase de manhã. Mas, antes que o dia viesse oferecer suas graças, quando era mais intensa e mais cruel a tensão e a expectativa de Antônio, um novo sopro de vida benfazeja brindou aquela remota localidade, aquela velha casa e a família que a habitava. Pelas quatro horas da madrugada, vieram do interior da casa duas mulheres. Uma era a parenta que com eles morava e tinha as mãos juntas como quem está em oração. A outra era a empregada que trazia uma lâmpada de querosene.

Chegando à varanda, a primeira dirigiu-se a Antônio e falou alegremente:

“Deus seja louvado, primo. Nasceu! Foi difícil, valha-me, mas nasceu. É uma menina! Vem para dentro, tua mulher o espera. A parteira está lá ultimando os cuidados necessários.”

Imediatamente, as feições de Antônio desanuviaram e fez-se em seus lábios um sincero sorriso. Seu coração encheu-se de ternura e satisfação.

Conforme iam entrando, foram escutando o choro de uma recém-nascida que preenchia a escuridão e fazia a vida reinaugurar-se toda nova.

(*) Este conto é dedicado ao meu tataravô Antônio Sylvestre de Oliveira (1826-1889)

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