Notibras

Cinco microcrônicas ácidas e cortantes

1.RESSACA “DEMOCRÁTICA”

Há alguns anos, seria chamado de “centrista”, “murista”, “indeciso”. Sonhou na madrugada. “O que realmente importa é a consciência em paz e a ética da vergonha na cara. Campanha limpa”. Cunhou o slogan: “VERGONHA NA CARA E CABEÇA LEVE”. Acordou no dia seguinte após as eleições. Apuração. Perdeu. Cabeça pesada e uma maldita ressaca “democrática”.

2. ZÁS!

Cérebro vagabundo, indefinível miolo circula/dor de galáxias. O chefe apita o trem. A dor rompe o limite, desanda. Trilha de sangue no trilho de aço. O salto de verniz espelha o sangue; o mundo espreita: menino moído sobre dormentes. Trilhos escarlates. Pernas trêmulas sobem o último degrau. Tranco. Estrondo. Vertigem. Vagões em movimento. Obsessão por histórias essenciais. É hora de reinventar contos para a mulher sobre pernas, sobre saltos. Sobressalto. Sabe que eu gosto muito de… Zás! Súbito, o homem vomita adjetivos pela janela virtual.

3. A FAQUIRA DIGITAL

Zarda, a faquira fake, fazendo abstinência sexual em praça pública. Deitada sobre a cama de pregos digita poemas transcendentais. Zardoz, o mitólogo, medita, enrolado em cobras holográficas que dançam música futurista. Na grande tela de cristal líquido pisca o anúncio: “Conheça o seu futuro e faça abstinência total”.

4. AMORES DE ALGORÍTMOS

Todos os dias as lembranças se apagam. Frágeis e amareladas. Velhas cartas que se esfarelam. Mas a criatura surge sempre quase real. Visitas inesperadas. Nada ficou por explorar. A descoberta, a atração, o desejo, a paixão, a parceria, o desamor, a fuga. Só ficou a memória do amor. E os dedos polegares a ditar o espaço vazio entre as mãos.

5.AMORES VIRULENTOS

Naquele turbilhão de volúpia havia um quê de velhacaria. A gringa ufanava-se do Brasil. Sem deixar dúvidas sobre suas intenções, entrava nas redes e ia direto à caça. Fingia perfil fake: pudica e conservadora, em claro contraste ao traste do homem de mãozinhas gordas com ela conectado. Naquela certeza um tanto tonta, ele multiplicava projetos e peripécias lascivas. Ela tremia. Súbito, o homem clicou no botão errado. Explodiu possibilidades, intenções qualificadas. ENTER e zás! Infecta com vírus o novíssimo PC NOTEBOOK comprado em 36 vezes, no cartão para libidinosos amores virtuais.

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Gilberto Motta é escritor, jornalista e professor/pesquisador de textos, formas e conteúdos em busca do texto enxuto/seco//mínimo. Vive na Guarda do Embaú, pequena comunidade de pescadores e turistas no litoral Sul de SC.

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