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Cleiton e o imbróglio com o Papai Noel

Cleiton, ao contrário dos colegas de banco, não tinha lembranças da época de infância, ainda mais quando o assunto era o Natal. Também, não era para menos, pois o sujeito passou a infância se culpando por nunca ter recebido nem mesmo uma mísero carrinho de plástico do Papai Noel. E olha que ele mandava a sua carta com antecipação para que o Bom Velhinho tivesse tempo de fabricar o presente.

— Mamãe, eu sou um menino mau?

— Mau? Por quê, Cleiton?

— Nunca ganhei nenhum presente do Papai Noel.

Sem coragem para expor a flagrante miséria para o menino, a mulher preferiu se embrenhar por outro caminho.

— Também, meu filho, com esses garranchos, quem é que entende? Você precisa melhorar a sua letra.

A artimanha funcionou até que Cleiton, já mais grandinho, descobriu que Papai Noel não existe. Pelo menos, o rapaz ficou com a letra mais bonita da turma, o que lhe rendia elogios de todos os professores. E esse parece ter sido o incentivo que o fez não desistir de estudar, tanto é que foi um dos raros alunos daquela escola que conseguiu melhorar de vida.

Banco do Brasil. Pois é, aos 25 anos, saiu de vendedor de cachorro-quente para funcionário do Banco do Brasil. Não ficou rico, obviamente, mas passou a ganhar o suficiente para comprar ao menos um presente de Natal para si, mas não para a mãe, que falecera prematuramente de câncer de mama pouco depois de ver o filho tomar posse no novo emprego.

O homem recebeu apoio dos poucos parentes e raros amigos. Vida que segue. E foi assim que seguiu a vida do Cleiton. Mas Natal era data de se fechar que nem ostra. E não havia santo que fizesse o gajo entrar no amigo-oculto do trabalho no final de ano.

— Mas por quê, Cleiton? Todo mundo vai participar?

— Não gosto, Sandoval.

— Não gosta? Mas é Natal!

— Por isso mesmo.

— Não gosta de Natal?

— Não.

— Ah, tá! Então, desculpe.

— Tudo bem.

Quando Cleiton já estava saindo, eis que o Sandoval, curioso que era, quis saber o motivo.

— É por causa da religião? Você é da Umbanda ou do Candomblé?

— Não. Tenho a letra mais linda do mundo.

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Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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