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Coisas do Asdrúbal

Asdrúbal, cuja mais flagrante característica era a quase completa ausência de destemor, também conhecida por covardia, há meses andava ressabiado. Não porque os amigos não tentassem arrancá-lo daquele praticamente estágio de vegetação desde que Laura o apunhalara pelas costas justamente com o Renan, um primo de madeixas aloiradas da moçoila. A coisa era mais complexa.

— Asdrúbal, meu amigo, você precisa levantar a cabeça e seguir em frente.

— Não consigo, Gilson. Como é que a Laura foi fazer isso comigo?

— Bem, meu amigo, é aquela coisa… Afinal, quem é que nunca se envolveu com primos? Aposto que você também já teve uma quedinha por uma prima?

— Meus pais são filhos únicos.

Sem Laura e primas para um improvável affair, Asdrúbal se fechou que nem ostra, e não havia quem conseguisse fazer com que o sujeito vislumbrasse o mundo que não deixava de correr por causa de frustrações amorosas, fossem elas de quem fosse, muito menos as de um reles caixa de banco. Banco particular, por sinal.

Num sábado, não muito quente, não muito frio, temperatura ideal para apaziguar intrigas tolas por conta de dois ou três graus centígrados para cima ou para baixo, eis que Asdrúbal não teve como recusar o convite para um churrasco no terraço do edifício onde residia. Até tentou, mas foi praticamente arrastado por seu vizinho de porta, o Osvaldo.

— Ou tu vem comigo ou tu vai ter que me expulsar da sua sala.

Como o colega era muito mais forte do que ele, Asdrúbal acabou cedendo, ainda mais porque constatou que qualquer coisa seria mais agradável a ser obrigado a passar horas conversando com aquele tipo. Não que desgostasse do Osvaldo, era até divertido, mas enfrentar aquele bom humor sozinho já era demais.

Além dos moradores, praticamente todos já conhecidos, havia uma bela mulher de seus 45 anos, que era aparentada da dona Clotilde, inquilina do 104. Mais para alta do que para baixa, ligeiramente acima do peso, alguém sem gosto poderia dizer, belos cabelos com alguns corajosos fios brancos à mostra, chamativos olhos castanhos ornados com cílios salientes, sorriso cativante de quem sabe o que quer. Patrícia era o seu nome.

A certa altura, quando todos pareciam satisfeitos com o rega-bofe, eis que os olhares de Asdrúbal e Patrícia se cruzaram pela primeira vez. Por um instante, os dois se mantiveram firmes até que, talvez por timidez, Asdrúbal desviou os olhos. A mulher, que poderia ter se desinteressado naquele momento, pareceu encantada por tamanho acanhamento e, impetuosa que era, se aproximou.

— Prazer! Sou a Patrícia.

Pego de surpresa, Asdrúbal, boquiaberto, levou alguns míseros segundos para responder.

— Asdrúbal.

— Hum! Nome forte. Gostei.

A conversa se desenrolou de modo incomum. Tanto é que, aos olhos dos presentes, todos tinham como certo o enlace entre aqueles dois. Mas eis que, do nada, a coisa pareceu degringolar.

— Então, Asdrúbal, você não vai me convidar para o seu apartamento?

— Sabe, Patrícia, eu até poderia, mas há algo que você precisa saber.

— E o que é?

— A minha mulher está em casa tomando conta dos nossos seis filhos. E preciso ir ajudá-la, pois as crianças são terríveis.

E foi assim que, com um argumento carregado de inverdades, que o Asdrúbal boicotou um possível romance, que até poderia não ir além daquele final de tarde, mas que, certamente, o teria arrancado do marasmo daquela melancolia. E o gajo continua sozinho, não por falta de oportunidade, mas por excesso de memória.

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